O Poço do Amor | 25Fev2008 00:00:00
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Jesus tinha um jeito todo especial de aproximar-se das pessoas. Na página do Evangelho da samaritana, ele chega cansado ao poço de Jacó e pede à mulher água para beber. Nada de mais simples e comum, principalmente no calor do meio dia. Jesus estava com sede. Também na cruz Jesus disse que tinha sede, mas, naquela hora, deram-lhe apenas vinagre, ninguém podia lhe dar água.
Jesus está cansado de andar pelas aldeias, cansado de oferecer a boa notícia do Evangelho; nem sempre é acolhido, porém não desiste. Mais do que sede de água, ele continua com a sede de oferecer-se aos homens. É assim que começa o diálogo com a samaritana. Jesus não finge ter sede para puxar conversa com ela. Ele quer que, em troca da água do poço - que a mulher pode lhe dar - seja ela, na realidade, a pedir-lhe uma outra água. A água que somente Jesus pode dar, a qual ele mesmo chama de água viva. Aquele homem, tão diferente, oferece algo inesperado àquela pobre mulher, rejeitada pelos maridos e ferida no amor: uma água capaz de tirar toda sede e que, por sua vez, transforma-se em fonte que jorra para a vida eterna.
Essas palavras são misteriosas para quem nunca encontrou Jesus de verdade, todavia são palavras transformadoras para quem o conhece, ao menos um pouco. O que acontece a quem pede e aceita de Jesus a água da vida? Começa a ver as coisas e as pessoas como ele mesmo as via. Começa a acreditar numa vida nova, feita de amor e de doação, acima da satisfação das próprias necessidades e do próprio orgulho. Essa fonte de amor nunca se esgota, sempre sai em busca do Amado e o reconhece em todos aqueles que precisam de amor.
A mulher, mal-amada, encontrou o segredo do amor que não tem fim. Por que, mais do que implorá-lo dos outros, ela mesma pode oferecê-lo. Quando só recebemos o amor, ele acaba em nós. Se não é repassado, morre. O amor doado se multiplica, porque quem o reconhece, aprende a amar e quer amar também. A fonte do bem, da vida doada, da generosidade, nunca seca. Jorra com mais força ainda. Quem sabe amar passa a ser uma fonte de amor.
O que nos falta para acreditar nisso? Por que estamos com tanto medo de doar amor àqueles que encontramos pelos caminhos da vida? A vida não ficaria mais alegre e risonha para todos? Entendo que quem não gosta de Jesus ou mesmo o considera somente um mestre de sabedoria possa desconfiar de tamanha novidade, mas nós que nos chamamos de cristãos, quando vamos aprender a amar como Jesus amou?
Para puxar a água do amor do poço do nosso coração não precisa balde. É suficiente a nossa vontade. É suficiente deixar que o coração de pedra se transforme em coração de carne, cheio de bons sentimentos. Cruel é a indiferença, bondosa a compaixão. Fria a insensibilidade, alegre a solidariedade. Covarde o egoísmo, desprendido o amor. Triste a solidão, amiga a fraternidade.
Precisamos todos, e muito, pedir a Jesus a água viva do seu amor. Reaprender com ele a conversar com todos, a ouvir a todos, a prestar atenção a todos. Mais ainda aos pequenos e aos esquecidos. Muitos, talvez, já acreditaram nisso, quando crianças, quando eram mais novos. Ficaram frustrados. O amor que ofereciam foi sugado e nada receberam em troca. Talvez salvaram as aparências, porém decidiram não amar mais ninguém de verdade. Tudo por medo de se machucar de novo. Eles mesmos secaram o seu poço.
Escolher a vida é doar sempre de novo o amor. É recomeçar com uma palavra, um sorriso, um abraço. Depois virá algo mais. Com certeza ficará a alegria de ter feito a vida mais bonita. Ficará a sede de querer amar mais. Seremos novamente fontes borbulhantes, como Jesus. Do seu lado aberto, na cruz, ainda saiu sangue e água.
*Dom Pedro José Conti, 58, bispo de Macapá (AP)
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O Poço do Amor - Dom Pedro José Conti* - Fonte: http://www.cnbb.org.br/index.php?op=pagina&chaveid=010c0000157













