As incertezas de Um e Outro | 10Jun2008 14:22:37
Publicado por: lecy2006@yahoo.com.br
Quando Um e Outro se deram conta de que nalgum lugar estavam, perceberam que se tratava de uma escada.
O problema era que, de onde estavam, não cabia retorno já que o suposto ponto de fuga muito se distanciava do alcance das vistas deles. Aliás, quem sabia de algum ponto de fuga? Outro fator complicador era que, para adiante não havia qualquer sinal de se chegar a lugar algum.
Assim, Um olhou fixamente para Outro, temendo externar suas emoções. Antes pensou não permitir que, em hipótese alguma, Outro soubesse do medo, digo, pavor que de si apossava. E se Outro disparasse escada abaixo e ali o deixasse? Não teria pernas e nem fôlego bastantes para alcançá-lo. Restaria o desespero, a solidão. E que lugar era aquele que nem de cenários laterais dispunha? O que se viam eram incontáveis degraus para trás e a mesma quantidade para frente, degrau após degrau.
Temendo parecer inconveniente e, ao mesmo tempo, perdê-lo de vista, Um perguntou a Outro onde estavam. Para quê?
Outro, indicando que usaria, sem demora, seu senso de humor, olhou para Um com olhos escancaradamente abertos. Depois se virou, levemente, divisando os incontáveis degraus traseiros. A seguir, olhou para outros incontáveis degraus à frente, sem parar de trocar os passos. Direita, esquerda. Direita, esquerda. Foi a conta. Outro disparou a rir, melhor, gargalhar. E seu estardalhaço ecoava escada abaixo e acima e era como se uma multidão fantasmagórica risse da ingenuidade de Um.
Outro tanto se riu, tanto se riu que lacrimejou e molhou a própria calça. Daí olhou para Um e perguntou se ele estava ouvindo algum som jazzístico de saxofone e vendo lindas garotas sentadas em posições para lá de sexy, mordendo os lábios regados a batom molhado e os convidando com o dedo indicador, dizendo vem-vem, para algo mais? Para emendar, Outro disse a Um que se soubesse onde era aquele lugar, simplesmente mandaria descer uma cerveja gelada e uma porção de coraçõezinhos de galinha bem passados e, sem dúvida, aquilo era coisa de autor com tempo de sobra para manipular personagens e se ele encontrasse a figura em seu caminho... Outro babou de raiva e começou a rolar escada abaixo. Um pensou tratar-se de um truque de Outro para o deixar ali, covardemente. Seu coração disparou. O ritmo das batidas se normalizou quando Um ouviu Outro, cheio de escoriações, prosseguir com sua filosofia:
- É exatamente como eu estou lhe dizendo. É muito fácil criar uma escada sem focar seu início ou seu fim, ilustrar as laterais com ausência de cor e colocar dois fantoches, quer dizer, personagens sem uma história passada-presente-futura. Ninguém sabe como estamos vestidos, se somos altos-baixos-magros-gordos ou temos tiques nervosos. Deve-se tratar de um desses escritores que fracassaram no teatro e vivem querendo imitar os grandes mestres do teatro do absurdo. E quem acaba pagando o pato? Duas figuras risíveis trocando passos numa escada sem fim.
Visivelmente abalado Um observou:
- O que me assombra é que se a escada não finda, findamos nós.
Outro balançou a cabeça negativamente e acrescentou:
-Francamente, crise existencial a essa altura da história... Relaxe Um. Pelo que sei, se há uma coisa que escritor sem argumento adora fazer é eliminar algum personagem para garantir um certo clímax na história. Eu estou farto de ler contos nos quais o autor se vale desse recurso fácil e mórbido. Certamente, um de nós deve estar na alça de mira do autor desta história. Talvez, Um e Outro também.
Tomado por um febril desespero, Um propôs a Outro:
-Olha, se realmente existe um autor que faz de nós o que bem entende e nos condenou a esses degraus contínuos, por que não nos sentamos agora e esperamos pelo fim?
Ao perceber uma certa intenção de desistir em seu companheiro, Outro fingiu concordar com a proposta de Um. Quando Um sentou-se completamente desanimado, Outro lhe desejou boa sorte e correu como nunca. Ele ansiava por uma saída que nunca se aproximava. Então, a câmera foi posicionada no alto, exibindo uma cena formidável. Enquanto Um tomado pela tristeza esperava o fim, encolhido num degrau, Outro corria, loucamente, tentando chegar nalgum lugar distante e improvável.
A última cena daquele filme em curta metragem estava pronta.













