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Ária para meu verso
Não sei de onde vem o verso Se da ponta da língua, no amargor Das construções do eu interior Cor local, meu som, meu universo É seta cruzando o céu, no vão da boca Linguagem gestual riscando a palma O canto sem cantor que lava a alma Tantas vezes sem pudor, palavra louca Pulsar de um coração cheio de espanto Que trago em minha mão como um cristal O verso me marcou na sina, seu sinal Na pele me cobriu de luz, seu manto No cerne da palavra, fonte e vertente Por onde me levou flor boiando em rio Semente a germinar, terra no cio Imagem em esplendor dentro da mente No ardor da escrita acendo a chama Espada da poesia, a mão erguida Me fere com prazer dor desconhecida Arranha a minha mão e ainda reclama Não nasce explícita, palavra crua E não revela a sua face no espelho É segredo, sussurro, falso conselho Que ao se revelar me torna nua Sandra Fonseca In: Dez Violinos Marinhos e Uma Guitarra de Sal - 2014 Fonte: http://asolidaodasmulherespoetas.blogspot.com/2014_10_11_archive.html#2405999936951572967 POESIA LÍQUIDA - 09Jul2014 15:47:00
Meu verso Rompe veias, barreiras Rio sem freios Que me carrega Sangra num fio De água doce Sangria louca Que não se estanca Palavra-lava Que se derrama Sem derradeiro Ponto final Meu verso É vício Ferida, carne viva Renda e filigrana É remendo às pressas Veneno, promessa Desengano É mel na boca Sorrindo, a louca Sonhando a lua Correndo nua Desaba inteira Feito tempestade Sobre a cidade Meu coração Meu verso É lenda, profanação De almas e sonhos A fina dama, tonta Obscena Úmida, lânguida Poesia líquida Sandra Fonseca Fonte: http://asolidaodasmulherespoetas.blogspot.com/2014_07_09_archive.html#3787662372797236388 LUA E SOL - 23Mar2014 23:11:00
Bastaria Eu vestida de lua E o teu ideal de ser sol Sobre esses dias de frio O tempo alucinado Como animal sem doma Sobre a delicadeza Desse sonho Sonhos Enovelando o destino Desatinos entre Dois mundos Bastaria A breve pausa Entre duas cenas Tão reais Meus olhos Cerram-se nos teus Num brevíssimo Bater de asas Nesta noite Que passa como Uma névoa. Sandra Fonseca Fonte: http://asolidaodasmulherespoetas.blogspot.com/2014_03_23_archive.html#6250426042333907469 A CASA DO SENHOR DAS ÁGUAS Não apresso a despedida Não apresso o rio Cultivo esse nó Que se desata, eterno E lento. Lentamente cavalgando as luas Delírio de astronauta Coisas, gestos mínimos Canto da boca De onde recolho gota a gota O sumo, a essência Isso que não é lunar E por ser movediço E denso Também não é terreno. É onda Quando se levanta Arrebatando voraz A fauna A flora A vida marinha E se arrebenta praia E se aquieta Do seu próprio furor Se se alimenta Argonauta. Domínios do mar Onde resido Onde a maresia Chicoteia o vento E lambe meus pés de areia Passageiros. Isso de que falo Me arrebata Avassala. Se estende desmedido Entre os mapas Das omoplatas E faz do ventre Um ninho de gaivotas Isso de que falo É marulhoso, infinito Tenso. E eu não desejo Escapar da sua casa Senhor das águas Mar esplêndido. Sandra Fonseca Fonte: http://asolidaodasmulherespoetas.blogspot.com/2013_11_11_archive.html#619419475765620561 MEMORÁVEL - 04Jul2013 01:27:00
Pousou sobre As suas coxas Era um frêmito Um alvoroço de plumas Penugens Pelos A boca sabia A sal A pele roçava nua Abriu-se dócil A intenção do ato O que a língua fala E o desejo Compactua Ligeiros Ágeis espasmos Estertores De prata e espuma A noite testemunhava Plácida bruma A cena memorável: Um pássaro pousado No ventre da lua. Sandra Fonseca Fonte: http://asolidaodasmulherespoetas.blogspot.com/2013_07_03_archive.html#4747329054689111404 INCOMPLETUDE Mãos de navalha Eu vou Cortando rumos Cortando a noite Em luas, Eu vou a esmo Por dentro Dos vendavais Dos sonhos Enraizada ao medo Mulher de carne E bruma Mal disfarçada, nua Eu vou Atada ao dorso Desse corcel Feito de fogo E asas, Por sobre o oceano Inteiro Por sobre as casas Eu vou Ao léu Abrindo Terras estranhas De fendas, mágoas Tamanhas De mim, Estrangeira Levando Dentro do peito Um coração voraz O filho bastardo De um sonho Incontinente Fugaz Devorador de ilusões Eu vou me repartindo Ao meio Sou parte Cheia de espanto E outra parte Desejo Eu vou... Sandra Fonseca Fonte: http://asolidaodasmulherespoetas.blogspot.com/2013_06_03_archive.html#903359366407491439 COLADA À TUA LUZ - 14Abr2013 16:07:00
Como se fosses morrer Me calo em sua boca Sôfrega, te respiro Vida E te desenhas Rictus, sorrisos Nas maças do meu rosto Vasculho de novo Sôfrega, repito Teu fundo poço O lamaçal, o fosso Onde me guardas Das palavras Colada a tua luz Sou frágil Inseto, transparente Quase abjecta. Insisto Persigo os teus desertos Faço do teu dorso O meu atalho incerto E atravesso a noite Deslumbrada de medo. A noite eterna e um sonho meu precioso diamante Colada à luz do dia Espero amanhecer. Sandra Fonseca Fonte: http://asolidaodasmulherespoetas.blogspot.com/2013_04_14_archive.html#2593940044508526810 Fogo e água - 17Fev2013 22:54:00
![]() Tudo se envolve em chamas, tudo arde Até o leito do rio aonde, náufraga, Mergulho em estupor a minha saga E vou me afogando sem alarde. Num desatino, a alma em desalinho O amor se move a esmo, pede um braço, O ninho caloroso de um abraço Envolto em línguas de águas e de linho. Eterna ardência a sede dos teus mares Eu sonho grandes asas sobre os ares Imenso céu que sabe o mundo inteiro. Teu corpo é quilha, casco de um navio Saltando as emoções do mar bravio, É fogo sobre água, barco, marinheiro Fonte: http://asolidaodasmulherespoetas.blogspot.com/2013_02_17_archive.html#2456039037333902046 FLORES DE INVERNO - 31Jul2012 01:09:00
Para TetêSão flores de inverno Que te entrego Ainda. Não consegui até Hoje reinventar O sol e nem Um canto de um Beija-flor cor-de-sol. Mas essas flores de inverno As construí pétala Por pétala Geradas das sementes Que plantamos Na seara De milhares de dias postos. Morreram tantas vezes Morremos tanto. Mas no milagre do tempo Que cicatriza as dores E levanta os dias sempre E de novo Feito uma eterna promessa Da vida Essas flores de inverno Que inventei Germinaram Como pequenas e inenarráveis Promessas Palavras de sol Que hão de fazer Brilhar tanto As páginas da vida. Com amor, Naninha. 30/07/12 Fonte: http://asolidaodasmulherespoetas.blogspot.com/2012_07_30_archive.html#3456817333892221969 ESSA PEDRA - 23Abr2012 03:20:00
?No Hades, ele (Sisifo) foi condenado, tendo de rolar, por toda a eternidade, uma pedra até o cume de uma montanha, que rolava novamente sobre ele?. Hamilton, E. Escrevo, às vezes Com essa mão decepada Da alegria É que a poesia Também é ira Essa belicosa fera Essa pedra. Fere E abre ferida Enche-a de lodo E sal. Um mal Acima do meu desejo Meu mal Meu beijo. Súbito trejeito Da alma Coisa impalpável Essa letra de fel. Letal Libido sem freios Esse poema louco Acéfalo cavalo de fogo Correndo nas pautas Nas patas insubmissas Do papel. Canta, sussurra Grita Essa ira Essa belicosa fera Essa pedra. Sandra Fonseca Fonte: http://asolidaodasmulherespoetas.blogspot.com/2012_04_22_archive.html#8013022062102623436 TRAÇOS - 21Fev2012 11:04:00
![]() Querer o mar ao largo do poente Um barco a navegar, aberto o pano Entre os azuis do céu e do oceano E o vento a sussurrar dentro da mente. São asas de gaivota na arrancada Quando se elevam aos céus em mudo espanto São patas de um corcel na atropelada E as notas irisadas de um canto. E o vento , o céu e o mar, a geografia Desenham em meu papel, muda grafia A letra da ilusão que eu mesma traço. A vida é um poema comovido Palavra por palavra em meu ouvido E a ânsia de voar me aperta o passo. Sandra Fonseca Fonte: http://asolidaodasmulherespoetas.blogspot.com/2012_02_21_archive.html#4321196395381361161 POR AMOR À PALAVRA - 22Jul2011 16:01:00
![]() Estou na Antecâmara Da palavra Estou na véspera Desse verso vago Que me invade Sem ter pressa. Num labirinto Sem saída Persegue-me. Estou no segundo Antes Da palavra, Estou no prenúncio Desse grito Que me grita Inteira E pelo meio Me devora Numa solicitude calma. Estou no pretérito No ontem Da palavra. Estou no âmago Dessa palavra que me ama De um amor sem saída Que se vive, fere A minha liberdade. A palavra me ama Com ganas De morte. Sandra Fonseca In: A solidão das mulheres poetas
Imagem: internet Fonte: http://asolidaodasmulherespoetas.blogspot.com/2011_07_22_archive.html#3072278867113622452 FENÔMENO - 19Jun2011 14:59:00
![]() Que voz, que vento Maresia, pensamento Que mesmo é isso Encanto Mão de ferro na garganta Brilho de cristal Na escuridão. Que pedra rara Lâmina que roça o pulso O pulo do gato Língua de trapo.
Revolve o fundo A s entranhas, a carne O sopro no cabelo Da memória distante O dolorido desse instante Um portento, um gigante Avassalador encanto Um verso arde No canto do olho
Sandra Fonseca *Imagem da internet Fonte: http://asolidaodasmulherespoetas.blogspot.com/2011_06_19_archive.html#8006778183072651974 MENINA SEM OLHOS - 15Mai2011 17:12:00
No espaço entre as palavras Faço um barco Um infinito de plumas E asas azuis Esse meu mar de ilusão. Fundo um reino Feito todo de ar E luz E poesia E nem mesmo sei Que matéria a inventa Que rara estrela acende Tochas e aves como braços De sol.
Onde há silêncios Cortando como facas Sobre o altar de um abismo Uma menina sem olhos Canta.
A sua alma é toda Feita de ouvidos E harpas. Aos poucos despe Suas carnes parcas De barro e água.
Montes de braços Traços e asas Na voragem Inenarrável Da vertigem.
Fonte: http://asolidaodasmulherespoetas.blogspot.com/2011_05_15_archive.html#6220986122088263751 Dona da lendas (Ária à poesia) - 26Abr2011 20:11:00
![]() Permita-me Dividir contigo Teu casaco, tua bebida Gotas, lentilhas, diamantes Teu anel de única palavra Brilhando no escuro. Permita-me Braços dados Velhas senhoras meninas Nós duas seremos Estranhas a esse mundo De sombras e de muros. Se divido teu passo Esse pisotear de pétalas Teu hálito de surpresas Inefável E empresta-me teu vestido O cetim, a renda O brocado. Lírica, mítica A dona das lendas Eu me vejo Trágica, seráfica Encharcada de risos Atravessando de valsas E de tangos A ira das borrascas. Eu e tu, Senhora De mãos dadas No largo da praça Embriagadas de letras E de cantos Seduzindo a vida.
Sandra foto: http://grupotablado.wordpress.com/ Fonte: http://asolidaodasmulherespoetas.blogspot.com/2011_04_26_archive.html#6377071970997198129 POR ANAÏS NIN - 09Mar2011 20:16:00
![]() Escrevo, Respiro. Escrevo tal a necessidade vital Que a experiência traduz Escrevo, Preciso, Tal como o mar precisa Da tempestade E o escuro Da luz. Reluz O ouro da palavra Na busca incessante Do maravilhoso Do infinito que toca O espaço, As coisas. Dão-me febre As palavras, Iluminação, Graça.´ E quando essa música Para na minha cabeça, Então remendo meias, Colho frutos, Mas, sinto Que não vivo. Fonte: http://asolidaodasmulherespoetas.blogspot.com/2011_03_09_archive.html#8970791851739997909 TU, OCEANO - 02Mar2011 13:49:00
![]() Me importo mais Que te demores Se te sinto Cada vez mais Fado, destino. Não desatino mais Em madrugadas vermelhas Em luar De luas pálidas Perfeitas Se te tenho em cada istmo De um desejo urgente. Se o tempo vai Machucando coração Bocas Veias Abrindo rios Torrentes Cachoeiras Que se vão desaguar Na vastidão dessas águas Onde habitamos Eu, mulher do mar Tu oceano. Fonte: http://asolidaodasmulherespoetas.blogspot.com/2011_03_02_archive.html#3459262461325897761 PAPÉIS E ESTRELAS ROUBADAS - 17Fev2011 12:12:00
![]() Tortuosos Os caminhos de dentro. Seguir a fantasia O horizonte sem alcance O intangível corre Com a ilusão. Há um cansaço No vidro dos olhos De tanto rodar aventuranças E filmes antigos. Eu peço Licença de não sonhar Momento isento Entre o azul do céu E um negro tormento. Tenho uma gaveta De papéis e estrelas roubadas. Eu tenho mil disfarces Para o mal de sonhar. O silêncio fechado num leque De poemas Eu abro num rompante. Nele, eu silencio Paisagens Corpos Luas que nunca existiram. E a alma corre Seu caminho de dentro Lavra em seu delírio As pedras brutas Do sonho. Sandra Fonseca Fonte: http://asolidaodasmulherespoetas.blogspot.com/2011_02_17_archive.html#6485342050410068924 É AQUI - 13Fev2011 12:41:00
![]() É aqui Onde toco as palavras Que sei de mim. Alguma certeza, A alma contra a luz Do dia, Os ossos, a carnadura. A leveza do ouvido Colado à brisa, A canção que só a mim Cabe silenciar. E a boca pausada Se movimenta E articula a beleza Secreta, sedenta, O mistério da palavra. Ouvi, A poesia me canta Por dentro Como um pensamento Como um coisa imorredoura, Sangramento, Sem causa, E sem pausa, Arrastamento. É aqui Que eu encho os meus olhos, De absurdo E de espanto, É aqui que eu fecho os meu ouvidos, E canto. Sandra Fonseca Fonte: http://asolidaodasmulherespoetas.blogspot.com/2011_02_13_archive.html#1509812672662369786 SETEMBRO - 18Jul2010 12:37:00
![]() Sei do meu tempo esse rosto breve e moço as lavras arrastando sonhos e os subterrâneos da semente preparando setembros. Penso o verde rio alisando o corpo da mãe das águas e os mares tingindo em azuis os barcos e as sereias. A areia branca de rendas e teias enfeitada de conchas e a chuva das pétalas contornando o dia. Penso setembro, manhã de nostalgia, setembro foi ontem, setembro é uma esperança pintada de branco. Setembro não vem. Fonte: http://asolidaodasmulherespoetas.blogspot.com/2010_07_18_archive.html#776856499027643662 ÁGUA SOBRE A PELE - 05Jul2010 00:54:00
![]() Jorra A fonte alta Sob a pele Chuva Chovem as luas Fagulhas Pontas de facas Estrelas nuas Suam Melíferas espumas Poros dilatados Mergulham Pontas de agulhas Adentro A alma Despe-se De seus vestidos de águas. O corpo sucumbe Íncubo tormento Líquido Sagrento Seu branco leito Navegante Afoga-se O sexo dormente. Retorna À fonte. Fonte: http://asolidaodasmulherespoetas.blogspot.com/2010_07_04_archive.html#7297987257997887618 O LIVRO DE MAGDA LUNA PAIS - 18Abr2010 14:34:00
Lançado pela editora Temas Originais, o livro da amiga Magda, ?Vida na Internet? . Como grande leitora que é, Magda traça suas impressões sobre a realidade virtual que nos insere a todos?
Magda Luna Pais nasceu em 1969 no Barreiro. É casada e mãe de dois filhos. Foi sempre uma leitora assídua, e nunca pensou em escrever até encontrar o site www.luso-poemas.net que veio alterar parte da sua vida. Deste site, onde exerce funções de moderadora, e do qual foi administradora, saíram novos amigos e ideias para este livro. Tem o seu próprio blogue http://stoneartportugal.blogspot.com, onde, para além dos seus textos, divulga textos de outros autores. Participou na Antologia Luso-poemas 2008, editado pela Edium Editores e na colectânea ?A arte pela escrita?, editada pela ArtEscrita.
Fonte: http://asolidaodasmulherespoetas.blogspot.com/2010_04_18_archive.html#7038678302298762782 EU VEJO O MAR - 01Nov2009 11:36:00
![]() Durmo o sono injusto da espera e o sonho repetitivo de um outro dia. Sei agora o que sou sem lembrar quem mesmo era. um poema me tocou ao centro da fronte defronte a alma E me roubou noites tantas fontes dores que já não doem ardores que já não desassossegam em barcos que já não navegam. O dia se iguala a noite e tudo equivale a nada o sol é lua apagada e sei que já não me lembro da alma antiga que tenho correndo por essa estrada. a madrugada vai alta a lua de papel de seda jaz num charco atirada e eu, pensei num poema feito de luz e sombra de sutileza e rumor. Prá dizer que nunca sei se essa voz que canta é minha se é minha a que pranteia por fim se sou o que escrevo ou se escrevo o que sonho. o que sei, eu sei do sonho e nem sei nada da vida se o que sei é o que suponho eu não sei nada de mim. um coração histrião, uma flor despetalada boiando em rio sem fim. doida, a alma na proa da nau sem vela, a vida é terra é pura pedra e eu vejo o mar. Fonte: http://asolidaodasmulherespoetas.blogspot.com/2009_11_01_archive.html#2688574963280923523 Saciedade dos Poetas Vivos Digital nº 9 - 18Out2009 12:05:00
Saciedade dos Poetas Vivos Digital nº 9 versa e verseja sobre as QUATRO ESTAÇÕES ? os ciclos da natureza e/ou a comparação deles com as fases humanas: o começo (aflorar/desabrochar), o auge (a expansão e o climax), o declínio (ocaso/reflexão) e o fim (frieza/tristeza) de uma paixão, de um sentimento intenso. Cada uma, em separado, narra um capítulo; juntas, retratam às vezes uma vida inteira, em uma espécie de cena contínua de uma obra aberta, de um work in progress. A idéia de desenvolvermos esta temática surgiu através de uma pesquisa que realizamos há algum tempo sobre Vivaldi. O compositor d' As Quatro Estações ? sua obra mais famosa ? expressa musicalmente os fenômenos da natureza e/ou os períodos sentimentais a eles metaforicamente equiparados: o eclodir/agir do primeiro impulso, a alegria-plenitude, a dúvida/reflexão e o término de uma relação afetiva. Nasceu portanto da música a poesia deste volume.Em todas as artes, as estações sempre despertaram obras maravilhosas; na poesia elas apareceram milnearmente nos kigos, que são o pilar das construções dos haicais tradicionais, e que se constituem por uma palavra ou expressão que sugere uma estação ou época do ano. Escreve Teliti Suzuki, Conselheiro do Centro de Estudos Japoneses da USP, no prefácio do livro "Natureza - berço do haicai - Kigologia e Antologia", organizado por H. Masuda Goga e Teruko Oda (1996): O preceito budista de que tudo neste mundo é transitório aparece na literatura japonesa desde seus primórdios, mais exatamente, na primeira antologia poética compilada no século VIII. Nos versos encadeados (renga e haikai renga), essa transitoriedade é expressa pelos kigo (termos de estação) que remetem às estações do ano ou a fenômenos sazonais e que devem constar obrigatoriamente da estrofe inicial do encadeamento, denominada hokku . Este hokku, por sua vez, passa a constituir um gênero independente a partir dos fins do século XVII, justamente quando o haikai renga da escola de Bashô se consolida com sua poética genuína. Dia de primavera ? Os pardais no jardim Tomam banho de areia. Onitsura O rio de verão ? Que alegria atravessá-lo De sandálias à mão. Buson Em qualquer lugar Onde se deixem as coisas, As sombras do outono. Kyoshi Sem guarda-chuva E sob a chuva de inverno ? Bem, bem! Bashô Fonte: Antologia de haicais japoneses - http://www.kakinet.com/caqui/antojap.shtml Contemplar a natureza sempre foi motivo de aprendizagem, reflexão e legado de experiências. Na nossa Saciedade dos PoetasiVivos, vol. 9, apresentamos o movimento das estações através de variadas propostas estéticas, na voz de dezessete poetas contemporâneos: Clevane Pessoa, Débora Siqueira Bueno, Dora Tavares, Jania Souza, Jaqueline Serávia, João Nilo, Márcia Sanchez Luz, Mariana Pinto, Pam Orbacam, Pedro Du Bois, Regina Vilarinhos, Sandra Fonseca (http://www.blocosonline.com.br/literatura/poesia/obrasdigitais/saciedigpv/09/sandrafonseca01.php), Sandra Souza, Sônia Adarias Soares Bruno, e dos nossos convidados especiais: Celso Gutfreind, Elisa Lucinda e Wilson Bueno (este último com um belíssimo repertório de rengas, nesta Antologia). Cada vez mais as estações do ano - pela ação predatória do ser humano e os consequente efeitos de estufa, principalmente - estão diferentes e mesclados: temos primaveras invernosas, invernos quentes, verões outonais, outonos primaveris. Porém, como "nos terrenos terrenos/ nada é definitivo", como escreve Celso Gutfreind, que a poesia venha reestabelecer a certeza de mudanças e a plena vivência dos climas e estágios da vida, sob todas as suas variações de luz.. Urhacy Faustino e Leila Míccolis EDITORES Lançamento oficial: 13 de outubro de 2009 (Dia Mundial do Escritor) Créditos: Capa: Vande Rotta Gomide Título: Eduardo Feijó Netto Machado Seleção de textos: Leila Míccolis Webmaster: Urhacy Faustino Fonte: http://asolidaodasmulherespoetas.blogspot.com/2009_10_18_archive.html#6663291848998462247 INSCREVE-TE
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