Lusopoemas - Blogs do Mês
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A coisa da palavra - 09Mai2008




Barco, coisa,

Homem,

Tudo é estático.

A pedra,

A mão,

O raio de sol.

Nada carrega o rumor,

O viço,

A respiração.

É tudo mudo,

Desprezado,

Sem a poesia,

Na palavra.

Então a ave sabe

A emoção do vôo,

A chave abre a escuridão

Na clave de sol,

Na canção.

O braço é do mar,

A onda na rebentação,

O olho chora, a maresia,

A noite morre nos braços

Do dia,

E nova a sinfonia,

Novo o sangue na palavra.

Novo o dia.

Se morre a vida,

Na dobra da esquina,

A dor do outro,

O louco.

No oco da palavra germina

Um poema.

Um poema

Como uma coisa

De asas.



Sandra Fonseca




Fonte: http://asolidaodasmulherespoetas.blogspot.com/2008/05/coisa-da-palavra.html

Madrepérola, madrugada - 05Mai2008




A noite é alta
Imponente.
E o que me salva
O teu corpo de ave
E o teu canto de sal,
Encanto e mel,
Enquanto a manhã,
Voraz em sua luz
Real em sua cintilância
Me devolve o dia
E a sua nova dor,
Extrema e nova,
Página revisitada.

Quem te entenderá mais?
Senão o meu espanto,
Feito de querer
E de ausência.
Um olhar perdido
No tempo e na distância,
O meu olhar
No seu.
E o tempo é nada,
Se guardas a minha caixa
Secreta,
Repleta de palavras,
De pequenos gestos,
Como a minha mão
Que pousa leve
De tule e emoção
Sobre o teu dorso.

Se pousa a noite
De carne
E esplendor,
E manto,
Sonho de novo
Cavalgar-te.
Teu corpo de água,
Feito de pranto
E de asa.
Compomos poemas,
Sangramos os mares,
Tocamos as luas
Em seus mágicos quadrantes.
E somos num instante,
Estátuas dos amantes,
Alabastro e pedra,
Madrepérola,
Madrugada.


Fonte: http://asolidaodasmulherespoetas.blogspot.com/2008/05/madreprola-madrugada.html

Bebi a lua - 29Abr2008



Bebi a lua

Entornada em pranto líquido,

Em filetes grossos

De prata.

Lívida era

A minha face,

E o vento acariciava

Os meus cabelos

De repente,

Transformados

Em hastes

Ferindo pontas de dedos.

Viajei na madrugada

Libertei fantasmas,

E encontrei

A magia das mandrágoras,

E quando cortei

As dores pela raiz,

Mais alto elas choraram.

Jogada em leitos

De rios de quimeras,

Sou afluente de tudo,

E me encontro,

Se devoro as flores

Antes dos frutos,

Se sou ave,

E aspiro o pólen,

E sorvo o néctar,

E de gritos

Eu preencho

Os meus ouvidos internos,

E nas línguas de fogo

Do lirismo,

Eu me queimo.



Fonte: http://asolidaodasmulherespoetas.blogspot.com/2008/04/bebi-lua.html

SÓ MEU, ETERNO - 28Abr2008




Eu tinha um coração

Que era puro fogo

Amo a solidão,

O fundo poço

Onde tateio

Teu braço, uma perna

Um lábio morno,

A sussurrar palavras

De um verso indecoroso,

Lascivo, louco.

Sonhei encontro

No que foi saudade.

O que sou sem ti

Senão o falso,

O pseudônimo,

A invenção do verbo,

Secreto gesto,

Inominável na sua boca.

E o que era eu

Senão reflexo

De um teu qualquer desejo,

Se habitei hangares

Onde habita a lua

E a nudez patética

De algum sonho.

E ainda hei de habitar

Nalgum cenário,

Clareiras que abrirei

Entre o alto mar e o meu deserto,

Melhor que seja assim,

No único modo de ser

Só meu,

Eterno?


Sandra Fonseca



Fonte: http://asolidaodasmulherespoetas.blogspot.com/2008/04/s-meu-eterno.html

Tambores - 24Abr2008



Se ainda há
O milagre dos tambores
E ressuscitam os mitos
Das florestas
E as almas antigas
E despertam os homens milenares
Na festa dos sentidos.

Se ainda há
O toque febril dos dedos
Na pele dos tambores,
A canção dos desejos
Mais ínfimos.
E os segredos
Correm dispersos
No rio dos ventos.

Se ainda há
Música
Em fragmentos,
No galope furioso
Dos tambores,
E as almas sem rumo
Sem etnias,
Sem encontram
Na dança do acasalamento.

Se ainda há
A magia dos tambores
Enredando
O encontro dos amantes,
No apogeu de um bolero
Alucinante.
Se ainda há canção
No ritual dos prazeres,
Nos gemidos
Na escuridão,
E os corpos já não são corpos
Em união,
Em sua convulsão,
Já são tambores!

Sandra Fonseca



Fonte: http://asolidaodasmulherespoetas.blogspot.com/2008/04/tambores.html

Do desejo - 21Abr2008




"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo Perdeste o senso! E eu vos direi, no entanto, Que, para ouvi-Ias, muita vez desperto E abro as janelas, pálido de espanto ..." Olavo Bilac



É da incerteza
Que surge
A minha busca.

De um canto qualquer
Surge o riso,

E o encanto.

De um nada qualquer

Sobrevivo.

Refaço-me de versos

Aprumo o meu barco

No rumo do universo,

Fujo à deriva
Num mar de sargaços.

Eu anuncio o dia,
Quebro as amarras

E solto os lastros da poesia,

Eu me invento.
Sou pensamento
E sou traço
Rabiscados nos muros.
Não mais me escondo
Atrás das mãos
Sobre os olhos,

E dos ouvidos moucos,
Eu grito.

É tão pouco

E fugaz

O momento,

Mas meu desejo
É imenso,
Denso,
Rebordado de estrelas,

Tantas quantas eu possa

Bebê-las.
E da janela
De onde as ouço,
Eu pinto na aquarela

Das manhãs,
Um breve rosto




Sandra Fonseca





Fonte: http://asolidaodasmulherespoetas.blogspot.com/2008/04/do-desejo.html

O cio da lua - 18Abr2008



A lua

Estranha e cheia

Esfera de prata,

Entre os astros dispersos

Guardiã fiel

Dos desejos inconfessos

Da humanidade.

Olhar imenso

Sobre as dores

As iniqüidades todas

Do universo

Engendra em seu ventre

As canções que embalam

A ciranda das estrelas.

A lua

Histérica fascinação

Em sua face

Esférica

Cria uma falsa impressão,

É que colada

Na boca da noite,

Corcel de fogo

E asas,

Risca o céu,

Desvirginando

As madrugadas...


Fonte: http://asolidaodasmulherespoetas.blogspot.com/2008/04/o-cio-da-lua.html

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