ADÁGIO PARA DEZ VIOLINOS MARINHOS E UMA GUITARRA DE SAL* -

Da sombra de um navio, um mar imenso,
Sem pontos marcados, sem farol
Que não seja a luz de uma vela acesa.
Um homem ao mar, uma mulher-sereia
O cântico monótono dos cascos nas ondas
O apelo sem rumo das estrelas
Canção inútil de acordar os deuses.
Netuno escondido na trilha dos espelhos
De mapas perdidos, de infinitas águas,
A dor nos espaços cortados em cem luas
E o grito demente das flautas no vento.
Mar e lua e as sombras nuas a se desmanchar
Os corpos como peixes nas espumas
Os olhos imersos em sal e poesia
As costas lanhadas nos beirais de areia.
O amor urgente riscado em outro mapa
Fora dos círculos ideais, fora das órbitas
Dos astros magistrais e dos seus reinos
As almas navegando a mesma rota.
E os olhos do oceano, as vistas grossas
Vertendo águas eternas, o inumerável momento
E as línguas como loucas desejando a fonte
E o barco do desejo desafiando as ondas.
As mãos, escamas, suas asas e caudas
Reconstruindo a arquitetura dos sonhos
Os gestos na tempestade repartidos
Em todos os abraços às portas da loucura.
Cessou a tempestade não tarda a aurora
Em seus cristais de azuis abrindo os céus
Os vultos transparentes se unem à paisagem
O sol invade os espaços como um portento.
Em toda a extensão da praia há poemas de amor
Escritos à dedo, as letras desconexas,
Canções profanas espalhadas entre vestes
De linhos e algas brilhando em arabescos.
Sandra Fonseca
* Inspirado em ?Concerto grosso per I New Troll? ? Track 03 -
Fonte: http://asolidaodasmulherespoetas.blogspot.com/2008/07/adgio-para-dez-violinos-marinhos-e-uma.html
PORTO ABRIGO -

Recebe a minha alma navegante
Cansada de vagar de sonho em sonho
E o corpo a levitar tão delirante
Lançado a um mar imenso que suponho.
Um corpo de mulher, um barco à vela
No ardor de atravessar dias e noites
Em nau de insensatez, a caravela,
Alheia aos ventos maus, aos seus açoites
Se nada além dos mares me importa
Senão as tuas mãos abrindo a porta
No abraço sem igual de um cais amigo
Que sejas um farol, a luz mais forte,
Brilhando além do mal, estrela e sorte,
Pra ser depois do mar meu porto abrigo.
Sandra Fonseca
Fonte: http://asolidaodasmulherespoetas.blogspot.com/2008/07/porto-abrigo.html
SEMBLANT -

Como quem parte
Permaneço,
Como quem esquece
Adormeço.
Escrevo delicadezas
Enquanto mordo
A raiva e o gozo
Da palavra.
Amanheço insone
Enquanto dorme
O meu sonho.
A minha alegria
É essa fantasia bizarra.
Como quem sabe
Desconheço,
Como quem erra
Tropeço.
Eu trago uma cicatriz
Risonha.
Anoiteço a vigília,
Faço das tripas, coração,
Eu danço um tango
No arame das minhas ilusões.
Vou partejando
O meu cortejo de desejos
Mal disfarçados de mágoas,
Enquanto a noite dorme,
E sou a lua
Cavalgando o ouro
De um cometa.
Sandra Fonseca
Fonte: http://asolidaodasmulherespoetas.blogspot.com/2008/06/semblant.html
FILME DE GUERRA II -
Para o menino Africano...
Se tu soubesses
Menino esquecido
Que eu não te esqueço
E faço por ti
Uma oração.
Peço aos anjos-meninos
Que te protejam
Da solidão.
Se eu pudesse
Menino triste
Inaugurava
O teu sorriso
Que há de ser
Tão bonito
Quanto o ébano
Da tua pele.
Sem que pedisses
Menino lindo
Eu embalava-te
Em minhas mãos
Dava-te um seio
Alimentava-te
Acarinhava-te
Nessa canção:
?Dorme menino
Do meu coração,
Dorme anjo,
Mamãe vai te ninar...?
Se eu conseguisse
Menino-dor
A ti chegar
Antes da sorte
Abrir suas asas
Estranha e forte
Ao teu redor.
Eu lutaria
Te protegia,
Se precisasse
Até a morte...
Sandra Fonseca
*Artista de BARCELONA, CATALUNYA, que encontrei neste maravilhoso blog:
www.jesus-creaciones.blogspot.com
Gracias por el permiso.
Duerme negrito- Mercedes Sosa - Mama Tinc Gana
Fonte: http://asolidaodasmulherespoetas.blogspot.com/2008/06/filme-de-guerra-ii.html
UM ANJO, UM PROMETEU, UM PIRILAMPO -

Minha alma anda trôpega
Como quem conta as horas
Nos patas dos cavalos
Que correm com a lua
A viúva dos dias,
A louca do vestido branco
Aquela que borda de estrelas
A sua cauda de espantos.
Minha alma anda sôfrega,
Como quem organiza
A noite dos prantos,
A fila das carpideiras
E seus xales de breu
E seus tules de pranto.
Minha alma anda tonta,
Pisando no avesso do céu,
Despindo pássaros noturnos,
Cobrindo o dorso dos fantasmas,
Roubando a luz aos anjos,
Fogo de um Prometeu,
Néon de pirilampos.
Minha alma anda surda
Buscando as conchas,
Aquelas que jorram pérolas,
D suas feridas.
Os sons de algum fauno,
Um alaúde,
Trompa sagrada de sereia,
A vaga poderosa e feroz,
Onda milenar.
Minha alma anda nua,
Na ânsia de encontrar
Nalgum recôndito,
Além e a mais
Dessa minha dor,
Angústia de ser mortal,
O milagre dolorido
De um poema.
Fonte: http://asolidaodasmulherespoetas.blogspot.com/2008/06/um-anjo-um-prometeu-um-pirilampo.html
O PERFUME -
Meus versos por aí cortando espaços
Perdidos como aves sem um ninho
Buscando no calor dos teus abraços
Um pouco mais de luz no meu caminho.
São barcos no oceano sem um prumo
Minh?asas de voar por sobre as águas
Que os ventos da saudade dão o rumo
No meio desse mar de tantas mágoas.
Palavras na corrente, maresia,
Sabores e aromas da poesia
Levando pelo ar o meu perfume
Na ânsia de buscar a cada instante
Que seja magoado, delirante,
O fogo desse olhar que atiça o lume.
Sandra Fonseca
Fonte: http://asolidaodasmulherespoetas.blogspot.com/2008/05/o-perfume.html
De que são feitos os sonhos? -

De que são feitos os sonhos?
Do sangue,
Da essência, a mais divina.
Da pele,
Dos desejos
Os mais humanos
Da letra
Dos destinos
Mais estranhos.
Da tinta
Mais antiga
Em pergaminhos.
Da luta,
Da dureza
Dos caminhos.
Da língua dos anjos,
E da ira
Das espadas.
Da ponta
Em ferro
Das chibatas.
Do canto,
Lamentos
Das sereias.
Do pranto
Da eterna
Lua cheia.
Das cores
Da primavera
Da transparência dos cristais.
Das flores etéreas
Do submundo
Dos astros.
Do brilho
Descabido
Das estrelas.
Dos anéis
Dos segredos
Das lendas.
Da poeira
Da cauda
Dos cometas.
Do encanto
Das palavras
De um poeta.
De um concerto
Que compomos
Às duras penas.
Disso tudo
E algo mais
São feitos os sonhos.
Sandra Fonseca
Fonte: http://asolidaodasmulherespoetas.blogspot.com/2008/05/de-que-so-feitos-os-sonhos.html
MÃE D?AGUA -

Em rios,
Na correnteza
Afloro, flor de ser levada
Mar de incertezas,
O canto do rio
No seu pranto
Me fala.
Segreda essa certeza:
Estou sozinha,
Ninguém me salva.
Repete como um mantra
O cântigo da perdição,
Canto do medo,
Pulsar estranho,
A solidão nas veias
Correndo lenta.
No entanto escuto,
Eu me calo,
Mas não me entrego,
O lábio treme,
O vento lambe os meus cabelos,
Antes das águas,
E quando me devoro em águas,
De corpo e alma,
Deságuo no grande oceano.
Entre as almas
Dos marinheiros,
De sonhos afogados,
E as sereias, sílfides,
As iaras,
Sou guerreira desses leitos,
Correntezas,
Nesta voragem de vida.
Entre pedras
E seixos e algas,
Sou líquida,
Infinita,
Mãe d?agua.
Sandra Fonseca
Fonte: http://asolidaodasmulherespoetas.blogspot.com/2008/05/me-dagua.html
A coisa da palavra -

Barco, coisa,
Homem,
Tudo é estático.
A pedra,
A mão,
O raio de sol.
Nada carrega o rumor,
O viço,
A respiração.
É tudo mudo,
Desprezado,
Sem a poesia,
Na palavra.
Então a ave sabe
A emoção do vôo,
A chave abre a escuridão
Na clave de sol,
Na canção.
O braço é do mar,
A onda na rebentação,
O olho chora, a maresia,
A noite morre nos braços
Do dia,
E nova a sinfonia,
Novo o sangue na palavra.
Novo o dia.
Se morre a vida,
Na dobra da esquina,
A dor do outro,
O louco.
No oco da palavra germina
Um poema.
Um poema
Como uma coisa
De asas.
Sandra Fonseca
Fonte: http://asolidaodasmulherespoetas.blogspot.com/2008/05/coisa-da-palavra.html
Madrepérola, madrugada -

Imponente.
E o que me salva
O teu corpo de ave
E o teu canto de sal,
Encanto e mel,
Enquanto a manhã,
Voraz em sua luz
Real em sua cintilância
Me devolve o dia
E a sua nova dor,
Extrema e nova,
Página revisitada.
Quem te entenderá mais?
Senão o meu espanto,
Feito de querer
E de ausência.
Um olhar perdido
No tempo e na distância,
O meu olhar
No seu.
E o tempo é nada,
Se guardas a minha caixa
Secreta,
Repleta de palavras,
De pequenos gestos,
Como a minha mão
Que pousa leve
De tule e emoção
Sobre o teu dorso.
Se pousa a noite
De carne
E esplendor,
E manto,
Sonho de novo
Cavalgar-te.
Teu corpo de água,
Feito de pranto
E de asa.
Compomos poemas,
Sangramos os mares,
Tocamos as luas
Em seus mágicos quadrantes.
E somos num instante,
Estátuas dos amantes,
Alabastro e pedra,
Madrepérola,
Madrugada.
Fonte: http://asolidaodasmulherespoetas.blogspot.com/2008/05/madreprola-madrugada.html
Bebi a lua -

Entornada em pranto líquido,
Em filetes grossos
De prata.
Lívida era
A minha face,
E o vento acariciava
Os meus cabelos
De repente,
Transformados
Em hastes
Ferindo pontas de dedos.
Viajei na madrugada
Libertei fantasmas,
E encontrei
A magia das mandrágoras,
E quando cortei
As dores pela raiz,
Mais alto elas choraram.
Jogada em leitos
De rios de quimeras,
Sou afluente de tudo,
E me encontro,
Se devoro as flores
Antes dos frutos,
Se sou ave,
E aspiro o pólen,
E sorvo o néctar,
E de gritos
Eu preencho
Os meus ouvidos internos,
E nas línguas de fogo
Do lirismo,
Eu me queimo.
Fonte: http://asolidaodasmulherespoetas.blogspot.com/2008/04/bebi-lua.html
SÓ MEU, ETERNO -
Eu tinha um coração
Que era puro fogo
Amo a solidão,
O fundo poço
Onde tateio
Teu braço, uma perna
Um lábio morno,
A sussurrar palavras
De um verso indecoroso,
Lascivo, louco.
Sonhei encontro
No que foi saudade.
O que sou sem ti
Senão o falso,
O pseudônimo,
A invenção do verbo,
Secreto gesto,
Inominável na sua boca.
E o que era eu
Senão reflexo
De um teu qualquer desejo,
Se habitei hangares
Onde habita a lua
E a nudez patética
De algum sonho.
E ainda hei de habitar
Nalgum cenário,
Clareiras que abrirei
Entre o alto mar e o meu deserto,
Melhor que seja assim,
No único modo de ser
Só meu,
Eterno.
Sandra Fonseca
Fonte: http://asolidaodasmulherespoetas.blogspot.com/2008/04/s-meu-eterno.html
Tambores -

O milagre dos tambores
E ressuscitam os mitos
Das florestas
E as almas antigas
E despertam os homens milenares
Na festa dos sentidos.
Se ainda há
O toque febril dos dedos
Na pele dos tambores,
A canção dos desejos
Mais ínfimos.
E os segredos
Correm dispersos
No rio dos ventos.
Se ainda há
Música
Em fragmentos,
No galope furioso
Dos tambores,
E as almas sem rumo
Sem etnias,
Sem encontram
Na dança do acasalamento.
Se ainda há
A magia dos tambores
Enredando
O encontro dos amantes,
No apogeu de um bolero
Alucinante.
Se ainda há canção
No ritual dos prazeres,
Nos gemidos
Na escuridão,
E os corpos já não são corpos
Em união,
Em sua convulsão,
Já são tambores!
Sandra Fonseca
Fonte: http://asolidaodasmulherespoetas.blogspot.com/2008/04/tambores.html
Do desejo -

Que surge
A minha busca.
De um canto qualquer
Surge o riso,
E o encanto.
De um nada qualquer
Sobrevivo.
Refaço-me de versos
Aprumo o meu barco
No rumo do universo,
Fujo à deriva
Num mar de sargaços.
Eu anuncio o dia,
Quebro as amarras
E solto os lastros da poesia,
Eu me invento.
Sou pensamento
E sou traço
Rabiscados nos muros.
Não mais me escondo
Atrás das mãos
Sobre os olhos,
E dos ouvidos moucos,
Eu grito.
É tão pouco
E fugaz
O momento,
Mas meu desejo
É imenso,
Denso,
Rebordado de estrelas,
Tantas quantas eu possa
Bebê-las.
E da janela
De onde as ouço,
Eu pinto na aquarela
Das manhãs,
Um breve rosto
Sandra Fonseca
Fonte: http://asolidaodasmulherespoetas.blogspot.com/2008/04/do-desejo.html
O cio da lua -

Engendra em seu ventre
Fonte: http://asolidaodasmulherespoetas.blogspot.com/2008/04/o-cio-da-lua.html



