PORTO ABRIGO - 14Jul2008

Recebe a minha alma navegante
Cansada de vagar de sonho em sonho
E o corpo a levitar tão delirante
Lançado a um mar imenso que suponho.
Um corpo de mulher, um barco à vela
No ardor de atravessar dias e noites
Em nau de insensatez, a caravela,
Alheia aos ventos maus, aos seus açoites
Se nada além dos mares me importa
Senão as tuas mãos abrindo a porta
No abraço sem igual de um cais amigo
Que sejas um farol, a luz mais forte,
Brilhando além do mal, estrela e sorte,
Pra ser depois do mar meu porto abrigo.
Sandra Fonseca
Fonte: http://asolidaodasmulherespoetas.blogspot.com/2008/07/porto-abrigo.html
SEMBLANT - 01Jul2008

Como quem parte
Permaneço,
Como quem esquece
Adormeço.
Escrevo delicadezas
Enquanto mordo
A raiva e o gozo
Da palavra.
Amanheço insone
Enquanto dorme
O meu sonho.
A minha alegria
É essa fantasia bizarra.
Como quem sabe
Desconheço,
Como quem erra
Tropeço.
Eu trago uma cicatriz
Risonha.
Anoiteço a vigília,
Faço das tripas, coração,
Eu danço um tango
No arame das minhas ilusões.
Vou partejando
O meu cortejo de desejos
Mal disfarçados de mágoas,
Enquanto a noite dorme,
E sou a lua
Cavalgando o ouro
De um cometa.
Sandra Fonseca
Fonte: http://asolidaodasmulherespoetas.blogspot.com/2008/06/semblant.html
FILME DE GUERRA II - 17Jun2008
Para o menino Africano...
Se tu soubesses
Menino esquecido
Que eu não te esqueço
E faço por ti
Uma oração.
Peço aos anjos-meninos
Que te protejam
Da solidão.
Se eu pudesse
Menino triste
Inaugurava
O teu sorriso
Que há de ser
Tão bonito
Quanto o ébano
Da tua pele.
Sem que pedisses
Menino lindo
Eu embalava-te
Em minhas mãos
Dava-te um seio
Alimentava-te
Acarinhava-te
Nessa canção:
?Dorme menino
Do meu coração,
Dorme anjo,
Mamãe vai te ninar...?
Se eu conseguisse
Menino-dor
A ti chegar
Antes da sorte
Abrir suas asas
Estranha e forte
Ao teu redor.
Eu lutaria
Te protegia,
Se precisasse
Até morrer...
Sandra Fonseca
*Artista de BARCELONA, CATALUNYA, que encontrei neste maravilhoso blog:
http://jesus-creaciones.blogspot.com/
Gracias por el permiso.
Fonte: http://asolidaodasmulherespoetas.blogspot.com/2008/06/filme-de-guerra-ii.html
UM ANJO, UM PROMETEU, UM PIRILAMPO - 09Jun2008

Minha alma anda trôpega
Como quem conta as horas
Nos patas dos cavalos
Que correm com a lua
A viúva dos dias,
A louca do vestido branco
Aquela que borda de estrelas
A sua cauda de espantos.
Minha alma anda sôfrega,
Como quem organiza
A noite dos prantos,
A fila das carpideiras
E seus xales de breu
E seus tules de pranto.
Minha alma anda tonta,
Pisando no avesso do céu,
Despindo pássaros noturnos,
Cobrindo o dorso dos fantasmas,
Roubando a luz aos anjos,
Fogo de um Prometeu,
Néon de pirilampos.
Minha alma anda surda
Buscando as conchas,
Aquelas que jorram pérolas,
D suas feridas.
Os sons de algum fauno,
Um alaúde,
Trompa sagrada de sereia,
A vaga poderosa e feroz,
Onda milenar.
Minha alma anda nua,
Na ânsia de encontrar
Nalgum recôndito,
Além e a mais
Dessa minha dor,
Angústia de ser mortal,
O milagre dolorido
De um poema.
Fonte: http://asolidaodasmulherespoetas.blogspot.com/2008/06/um-anjo-um-prometeu-um-pirilampo.html
O PERFUME - 30Mai2008
Meus versos por aí cortando espaços
Perdidos como aves sem um ninho
Buscando no calor dos teus abraços
Um pouco mais de luz no meu caminho.
São barcos no oceano sem um prumo
Minh?asas de voar por sobre as águas
Que os ventos da saudade dão o rumo
No meio desse mar de tantas mágoas.
Palavras na corrente, maresia,
Sabores e aromas da poesia
Levando pelo ar o meu perfume
Na ânsia de buscar a cada instante
Que seja magoado, delirante,
O fogo desse olhar que atiça o lume.
Sandra Fonseca
Fonte: http://asolidaodasmulherespoetas.blogspot.com/2008/05/o-perfume.html
De que são feitos os sonhos? - 25Mai2008

De que são feitos os sonhos?
Do sangue,
Da essência, a mais divina.
Da pele,
Dos desejos
Os mais humanos
Da letra
Dos destinos
Mais estranhos.
Da tinta
Mais antiga
Em pergaminhos.
Da luta,
Da dureza
Dos caminhos.
Da língua dos anjos,
E da ira
Das espadas.
Da ponta
Em ferro
Das chibatas.
Do canto,
Lamentos
Das sereias.
Do pranto
Da eterna
Lua cheia.
Das cores
Da primavera
Da transparência dos cristais.
Das flores etéreas
Do submundo
Dos astros.
Do brilho
Descabido
Das estrelas.
Dos anéis
Dos segredos
Das lendas.
Da poeira
Da cauda
Dos cometas.
Do encanto
Das palavras
De um poeta.
De um concerto
Que compomos
Às duras penas.
Disso tudo
E algo mais
São feitos os sonhos.
Sandra Fonseca
Fonte: http://asolidaodasmulherespoetas.blogspot.com/2008/05/de-que-so-feitos-os-sonhos.html
MÃE D?AGUA - 15Mai2008

Em rios,
Na correnteza
Afloro, flor de ser levada
Mar de incertezas,
O canto do rio
No seu pranto
Me fala.
Segreda essa certeza:
Estou sozinha,
Ninguém me salva.
Repete como um mantra
O cântigo da perdição,
Canto do medo,
Pulsar estranho,
A solidão nas veias
Correndo lenta.
No entanto escuto,
Eu me calo,
Mas não me entrego,
O lábio treme,
O vento lambe os meus cabelos,
Antes das águas,
E quando me devoro em águas,
De corpo e alma,
Deságuo no grande oceano.
Entre as almas
Dos marinheiros,
De sonhos afogados,
E as sereias, sílfides,
As iaras,
Sou guerreira desses leitos,
Correntezas,
Nesta voragem de vida.
Entre pedras
E seixos e algas,
Sou líquida,
Infinita,
Mãe d?agua.
Sandra Fonseca
Fonte: http://asolidaodasmulherespoetas.blogspot.com/2008/05/me-dagua.html




