Blogs do Mês
Feira do Livro de Barcelos - 16Jun2008

Apresentação do meu segundo livro, em Barcelos, na feira do Livro.
Dia 2 de Julho, pelas 21,30.
Apresentado pelo escritor Branco de Matos.
Fotografia de João Luz
Ilustração: Silva Torres
Fonte: http://o-ente-do-ser.blogspot.com/2008/06/contos-de-gua-e-areia-apresentao-do-meu.html
A página branca perdeu as asas - 07Jun2008
Foto: João LuzA página branca perdeu as asas. Não traz no bico paz, muito menos um céu claro.
Um Homem feito estátua, feito de pedra nas palavras que não disse, espera ansioso que o pássaro inquieto do tempo lhe aponte o caminho, lhe segrede razões de voo capazes de o fazer quebrar as razões de mármore do seu imobilismo.
Pergunta-se se foi praga estranha que lhe rogaram, assim capaz de lhe cortar em silêncio os pulsos e a língua, vinda de dentro do peito a faca, vinda de dentro do tempo a mágoa, mas não encontra respostas.
Jaz, como jazem tranquilos, todos os que perderam os passos nos passos tranquilos dos pássaros que nunca voaram.
No fundo de um poço vivia uma lenda.
Havia uma mulher que por ciúme não dormia. Vigiava até os olhos lhe doerem os passos do seu amado.
Um dia, ensonada, seguiu o seu homem por uma mata vizinha à casa, até este parar junto de um poço agrícola.
Escondeu-se por detrás de um grande carvalho, esfregado os olhos de um cansaço quase insuportável, para que pudesse finalmente apanhar em flagrante o traidor.
Reparou que este se sentara na beira do poço, porém, apesar de falar com alguém, a enciumada mulher não conseguia vislumbrar a pérfida amante. Pensou que tal cegueira se deveria ao facto de quase não conseguir manter-se de pé, tantas eram as noites sem dormir, tamanha era a desconfiança.
Acercou-se um pouco mais, agora protegida por um penedo que se encontrava a escassos metros do local onde o homem se sentara.
Dali conseguia ouvir mais claramente aquilo que dizia, olhando para dentro daquele olho de água plantado no meio do terreno.
- Sabes, tenho a sensação de que a minha mulher desconfia de alguma coisa?Não dorme durante a noite, como que vigiando os meus sonhos. Sinto-a em todo o lado. Agora mesmo, tenho a sensação de que me espia?
- Não consigo viver assim, estou a um passo de a deixar?
A mulher quando ouviu estas palavras, saiu furiosa e descontrolada detrás do penedo correndo para o flagrante. Porém, quando de braços abertos tentava apanhar os seus fantasmas, tropeçou numa pedra que se encontra perto e tombou bem dentro do poço fundo, ouvindo-se o barulho da queda num som estranho que chegou em eco até à superfície.
O homem ficou estático, sem reacção. Depois chamou pelo seu nome, mas o som bateu nas paredes ovaladas e regressou até à boca, largo.
Ficou quieto, estranhamente quieto, e pela primeira vez na sua vida, mudo.
O escritor já não escreve. Uma vez mais as palavras levantaram voo deixando a sua página vazia.
Sente os pés a ficarem dormentes como pedra, um veio de morte a trepar rápido por si acima. Pernas e braços incapazes de esboçarem qualquer reacção. Depois, os músculos do pescoço a retesarem-se, os olhos a perderem o brilho, baços.
Um pássaro poisa no seu ombro e defeca nele.
As estátuas são definitivamente o sítio preferido dos pássaros fugidios da escrita e o tempo um poço sem fundo.
Já alguém perdeu nele uma mulher?
Um Homem feito estátua, feito de pedra nas palavras que não disse, espera ansioso que o pássaro inquieto do tempo lhe aponte o caminho, lhe segrede razões de voo capazes de o fazer quebrar as razões de mármore do seu imobilismo.
Pergunta-se se foi praga estranha que lhe rogaram, assim capaz de lhe cortar em silêncio os pulsos e a língua, vinda de dentro do peito a faca, vinda de dentro do tempo a mágoa, mas não encontra respostas.
Jaz, como jazem tranquilos, todos os que perderam os passos nos passos tranquilos dos pássaros que nunca voaram.
No fundo de um poço vivia uma lenda.
Havia uma mulher que por ciúme não dormia. Vigiava até os olhos lhe doerem os passos do seu amado.
Um dia, ensonada, seguiu o seu homem por uma mata vizinha à casa, até este parar junto de um poço agrícola.
Escondeu-se por detrás de um grande carvalho, esfregado os olhos de um cansaço quase insuportável, para que pudesse finalmente apanhar em flagrante o traidor.
Reparou que este se sentara na beira do poço, porém, apesar de falar com alguém, a enciumada mulher não conseguia vislumbrar a pérfida amante. Pensou que tal cegueira se deveria ao facto de quase não conseguir manter-se de pé, tantas eram as noites sem dormir, tamanha era a desconfiança.
Acercou-se um pouco mais, agora protegida por um penedo que se encontrava a escassos metros do local onde o homem se sentara.
Dali conseguia ouvir mais claramente aquilo que dizia, olhando para dentro daquele olho de água plantado no meio do terreno.
- Sabes, tenho a sensação de que a minha mulher desconfia de alguma coisa?Não dorme durante a noite, como que vigiando os meus sonhos. Sinto-a em todo o lado. Agora mesmo, tenho a sensação de que me espia?
- Não consigo viver assim, estou a um passo de a deixar?
A mulher quando ouviu estas palavras, saiu furiosa e descontrolada detrás do penedo correndo para o flagrante. Porém, quando de braços abertos tentava apanhar os seus fantasmas, tropeçou numa pedra que se encontra perto e tombou bem dentro do poço fundo, ouvindo-se o barulho da queda num som estranho que chegou em eco até à superfície.
O homem ficou estático, sem reacção. Depois chamou pelo seu nome, mas o som bateu nas paredes ovaladas e regressou até à boca, largo.
Ficou quieto, estranhamente quieto, e pela primeira vez na sua vida, mudo.
O escritor já não escreve. Uma vez mais as palavras levantaram voo deixando a sua página vazia.
Sente os pés a ficarem dormentes como pedra, um veio de morte a trepar rápido por si acima. Pernas e braços incapazes de esboçarem qualquer reacção. Depois, os músculos do pescoço a retesarem-se, os olhos a perderem o brilho, baços.
Um pássaro poisa no seu ombro e defeca nele.
As estátuas são definitivamente o sítio preferido dos pássaros fugidios da escrita e o tempo um poço sem fundo.
Já alguém perdeu nele uma mulher?
Fonte: http://o-ente-do-ser.blogspot.com/2008/06/pgina-branca-perdeu-as-asas.html
Dia 2 de Julho, na Feira do Livro de Barcelos, apresentação do meu segundo livro - 03Jun2008
No dia 2 de Julho, cerca das 21,00, na feira do Livro de Barcelos, apresento o meu livro "Contos de água e areia".
São quatro histórias que se ligam pela água e se estendem num tempo de areia.
A fotografia de capa é do meu amigo João Luz e tem ilustrações de Silva Torres, meu irmão.
Convido todos os meus leitores e amigos a estarem presentes neste momento, especial para mim, na partilha daquilo que faço com tanto entusiasmo: escrever.
Fonte: http://o-ente-do-ser.blogspot.com/2008/06/dia-2-de-julho-na-feira-do-livro-de.html
Se a crise se acentuar vendo o meu cão - 26Mai2008

Parte I
Se a crise se acentuar vendo o meu cão
Tem pedigri,
Vacinas em dia.
Tem lombrigas,
Mas ninguém diria.
E se a crise se acentuar
Vendo o meu fígado
Tem um cão dentro dele
Mas ninguém diria.
Que se vender o meu cão
vendo-me nesse dia
Parte II
(Parte do leitor participante, espécie de carraça benigna...)
E tu queres vender o cão?
Um cão não se vende
Muito menos um homem
Há um cão dentro de cada homem
Que cada escritor sente através do fígado.
Fonte: http://o-ente-do-ser.blogspot.com/2008/05/se-acrise-se-acentuar-vendo-o-meu-co.html
Porque me roem as térmitas os dedos? - 22Mai2008
Foto: João Luz Respiro escrita pelos dedos.
Tenho as palavras nos poros encravadas como pelos.
Não me deixam dormir de tão ofertadas
Fazem barulhos estranhos durante a noite,
Como se fossem térmitas a roer-me despudoradas.
Sempre que olho para o lado vazio da minha cama,
Há mulheres deitadas com palavras, quase térmitas roendo-me.
Cada uma, um verso, um começo, uma prosa sem defeito.
Cada uma um final impossível de ser escrito.
Em cada uma um poema de alcova, insatisfeito mas dito.
E as que me olham desconfiadas,
Acendem cigarros no meu beijo e descruzam as pernas ao texto,
Como se eu tivesse merecido o direito à sorte,
Afinal, a minha vida é um eterno feminino:
- Palavra, escrita, desdita, morte.
A minha vida um desassossegado sopro de menino.
Já amei muitas palavras, fiz amor com o desgosto.
A quase todas despi os segredos, domestiquei os medos.
Fui amigo, amante, marido. Fui guerreiro e tombei ferido.
Sei que cada uma é uma só e o seu oposto.
Um pecado original repetido.
E se sei isto? porque me roem afinal as térmitas os dedos?
Fonte: http://o-ente-do-ser.blogspot.com/2008/05/porque-me-roem-as-trmitas-os-dedos.html
Visualizar artigo na origem - 20Mai2008
Foto: João LuzChamava-se Quim. Não sei se alguma vez nos cruzamos nas ruas da cidade.
Desconfio que sim. Afinal as cidades são esmagadoramente pequenas por maiores que sejam.
E parece que morávamos até em Bairros próximos. Divididos por uma via rápida. A mesma que matou o escritor de rua esquecido, atropelado por alguém que nunca leu um livro.
Chamava-se Quim, e morava num pacote de heroína, que tinha dentro todo o lixo civilizacional. Chamava-se beco, cingia-se de prata e fogo.
Não sei se fui um dos que cruzou os braços, quando por ele passou na rua do esquecimento?
Não me lembro.
Não me lembro de mo terem apresentado, dizendo: Chama-se Joaquim, mora dentro dele um homem como tu.
Eu andava demasiado ocupado em ser racional. Andava cansado.
Por isso não o vi no escuro, quando entrou furtivamente na central eléctrica.
Não vi que levava as mãos nuas e sapatos de terra nos pés. Não o vi contentar-se com cobre, que nunca em menino sonhou com ouro, nem o ouvi a mandar calar o silêncio, quando um cachorro vadio o tentou alertar do perigo com um latido.
Vi o seu corpo em fogo naquela notícia de jornal.
Foram 15.000 volts de indiferença que o mataram.
Fonte: http://o-ente-do-ser.blogspot.com/2008/05/foto-joo-luz-chamava-se-quim.html
Regresso a ti - 20Mai2008
Foto: João LuzFiavas as palavras horas a fio. Com o novelo dos dias, um após outro, tecias o longo tapete de tempo por onde te urdias.
Por isso, ninguém te esperava do outro lado de ti quando apareceste sem avisar, regressado de todas as viagens feitas num livro.
Amor e ódio de igual maneira repartido, ilusão e queda pelos mesmos sentidos.
Dos heróis clássicos vestias todo o romantismo: Romeu, D. Juan, Quixote?E havia até um certo modernismo na forma como calçavas a desilusão dos prédios, como te avistavas em cada janela espreitando-te. Em cada longa avenida de passos perdidos.
Chegaste sem avisar, e a cidade já não te reconhecia.
Lembravas-te de ter uma família, filhos que brincavam no pátio. Havia até um cão de orelhas espevitadas, mas não te conseguias recordar do nome.
Apanhaste um táxi inglês e foste à procura das tuas memórias. Desembocaram numa casa pequenina, daquelas que conhecias das fábulas, dos contos infantis. Telhas de chocolate, cerca de madeira pintada de vermelho vivo.
A casota do cão ao fundo do jardim era de banda desenhada e havia um balão por cima com a inscrição: zzzzzz? Caminhaste devagar para não o acordar. Bateste à porta quase em surdina, pois tinhas um certo receio de despertar em ti memórias de sonhos passados que não sabias se tinhas vivido?
Ouviste passos. Caminharam em direcção a ti. Abriram-te a porta.
Eras tu, e habitavas naquela casa de escrita, de onde nunca tinhas saído.
Sentaste-te na velha cadeira de baloiço que te ofereceste, bebeste contigo calmamente um chá que fizeste. Folheaste o jornal.
A notícia do dia falava de um escritor galardoado. Da forma como tinha intermediado um conflito armado e tinha sido alcançada a paz, de como os homens se tinham unido para construir um futuro melhor, participado e livre.
Recostaste-te na cadeira baloiçando de cá para lá no tempo, e nesse processo fechaste os olhos, satisfeito.
Lá fora, o chilreio das crianças, chegava finalmente pela mão da Primavera.
Fonte: http://o-ente-do-ser.blogspot.com/2008/05/regresso-ti.html



