Valdevinoxis

Mentiras - Valdevinoxis -

Às caras poderia chamar faces
e de caras lhes chamaria rostos
se as encarasse como poesia,
se não lhes visse olhos cavados,
as rugas casadas com anos feios
ou os tons cinzentos e alheios.

Desgosto das suas formas redondas,
esguias, pálidas ou amendoadas,
que se disfarçam sempre de belas
com máscaras de lua e estrelas...
desgosto tanto delas
que quase me arrependo de o fazer assim.

Valdevinoxis



Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=61690

Andou por aí um tabu a fazer-se ver - Valdevinoxis -

Mostrava-se vertical e de boa raíz,
Tão boa que nem a espinha dobrava,
Tão boa que nem o balanço titubeava.

Não se dizia tabu...
antes forma de crer.

Encostado a um qualquer triz
Que se arrumou, de jeito infeliz,
A um aluimento de vontade séria,
O tabu, tabuzinho, tabuzão,
Tavestiu-se de engomada léria
Que se amiga a gente de desilusão.

Criou-se tabu
recriou-se crer
e empalou o querer
Numa tábua rugosa.

Valdevinoxis



Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=60822

Senhora dama - Valdevinoxis -

Despe-se de nua
Veste-se de lua...
Titubia por sexo
Que queria por amor
E acaba, sem nexo,
Só a tê-lo dito de cor.

Adorna-se de cru,
Sobre o corpo meio nú...
Aguarda até adormecer
Como se bastasse dizer
Que o sono esquece
O que o calor não aquece.

Valdevinoxis



Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=59969

29º foto - Ladislau e as estrelas da Guiné - Valdevinoxis -

Lá para o sul não se via nada, a norte também não e, nem para os outros lados havia qualquer vislumbre do que quer que fosse. Desorientação, uma desorientação absoluta com sabor de inércia... inépcia. Sentou-se e aconchegou as bochechas ausentes nas palmas das mãos, numa espera por nada que afligia.
Ladislau, homem que viera de terras da Guiné, era uma pessoa afável, simples e ingénua, assim como são todos os naturais. Viera para a Europa há alguns dias, à boleia da procura de qualquer coisa que não se sabe bem o que é. Qualquer coisa melhor... ou talvez, qualquer coisa que parecesse melhor.
O olhar perdeu-se com facilidade. Nunca vira deserto tão grande, árido e sem uma referência que lhe dissesse "vai por ali". Uma enorme ausência com um mar de gente, branco, frio e de cimento. Restavam-lhe as estrelas e essas só vinham de noite.
É tão bom olhar para as estrelas e contá-las. O avô tinha-lhe ensinado a contar estrelas. "Nunca apontes para elas. Por cada uma que apontares cresce-te um cravo nas mãos. Conta-as, se fores capaz, só com o olhar.". O Ladislau cumpria. Não era coisa que quisesse, essa de ter as mão cheias de cravos, afinal, as estrelas são tantas.
Esperou sentado no poial junto a uma porta feia. Encostada às suas costas a porta soltava lascas de tinta verde já encarquilhada. Fechou os olhos por momentos e regressou ao chão quente, cor de tijolo das ruas da terra que o deixou nascer. Os briquedos raros, feitos de arame e de rodas de madeira, os aros de bicicleta nús e empenados a correr à velocidade dos pedais e o cheiro da pasta de farinha cozinhada no fogo era sedutor quando havia. Guiné. Parecia tudo tão pouco lá e a agora, de cá, parece tudo tão bom.
Acordou daquele sono que não era de dormir e as estrelas lá estavam. Mas... todas tão presas, o céu estava todo num quadrado. Como podia ser? Como é que tinham conseguido prendê-lo? Até se conseguia contar a estrelas todas. Este mundo não está certo.
Está frio. Está tanto que nem os que por ali andam olham alguém nos olhos. Todos olham para o chão. Pois. Então seria por isso que as estrelas estavam presas? Talvez fosse por isso, para não terem que as procurar quando conseguissem levantar os olhos. Lá na Guiné, nem o chão é preto, nem as gentes olham para os pés, nem nunca está frio, as estrelas livres abeiram-se dos gaiatos e, no fim, todos pensam que no norte é que é tudo bom. Engano. Engano. O bijagó sabia-o agora.
Ladislau, que até fora um puto feliz, percebeu que a magia de imaginar coisas melhores lá longe pode não passar de um feitiço que prende a liberdade.
Está frio e as estrelas presas não sabem caminhos.

Valdevinoxis



Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=59578

Fénix ou, talvez, até não - Valdevinoxis -

Na ressaca de um sentimento forte, soou um estampido seco e bruto. Caiu, com a cabeça desfeita e o coração aberto, o corpo vazio, como que abandonado por tudo o que mexia. Coisa de meliante, que não é mas parece.
Na ressaca de uma vontade fraca, guiada por outrém que nunca chega ao merecimento (e ainda assim, mereceu), a redoma, toda frágil, partiu-se deixando sair o ar que enchia o peito. Coisa de devoção que não é mas acaba por ser.
Na ressaca de sentimento forte, que se inflamou e ardeu até às cinzas, deitou-se sem unhas, o inanimado já indefeso. Arranhou, arranhou a pele e a parede... e o chão com as pontas dos dedos, já em osso.
Na ressaca de qualquer coisa que não se sabe muito bem o que é, fica sempre um renascimento agarrado à esperança que nasce de sítios idos, lidos e lindos.

Valdevinoxis



Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=59307

fui a jogo e dancei com a mais feia - Valdevinoxis -

morderam-me os calcanhares
com pontas de línguas soltas
ornadas de gentes sulfúricas...

picaram-me as tetas secas
e cravaram-lhe puxões de espremer
o tutano mais profundo...

doeu de dor que não se esgota,
doeu de dor que se ri,
doeu de dor violenta...

desfiz-me, então, em aneurismas
que pingavam dos dedos das mãos
e se entornaram em folhas
que já foram finas escolhas
e acabaram por ser de papel almaço...

eis que me sai um arreganho de dentes
a esmagar os maxilares
entre o peito e algo mais
e atirei rezas obscenas, todas sentidas,
para cima da mesa da batota...
não perdi mas também nunca ganho...

coisa de dança parada
a fazer-se só com os olhos envinagrados
de tanto sal, que tende a encrostar.

Valdevinoxis



Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=59108

A estupidez é tão velha que já nem escolhe os cegos - Valdevinoxis -

Corre-lhe a velhice pelas costas abaixo.
Isto acontece sempre que as formas são coisas ditas e as coisas acabam por enformar frases que gangrenam ulceradas.
Ainda no outro dia o tipo falava com o espelho, depois da hora do narciso e comentava que nem a estupidez discrimina. Dá-lhe tanta atenção que nem tenta evitar ignorá-la. Leva um estalo e responde. Acaba por levar outro estalo e depois já nem se cala. Não se aprendem coisas destas quando se cresce ou, talvez, não se aprendam porque não se cresce.
Mistura tudo, bocados de estranho amor com o amor de ser e chega a conclusões ondulantes que se perdem de sentido fora de si. Mas, ainda assim, consegue ver o que diz.
Há dizeres que destoam. Os ditos e os ouvidos quando não são nossos, os deles quando são dos outros... há dizeres que destoam do certo e não se prendem a nada que seja sério. São estes que ficam sempre registados e nunca encaixam.
Há dizeres que destoam e, também, outros que não, que estão colados, que são da mesma cor e sabem sempre ao mesmo. Parecem flores de jardim plantadas em canteiros desenhados à esquadria. São esses que separam as gentes das gentes.
No meio disto, ocorre-lhe dizer que, assim, depressa vai acabar por ficar gasto. É quando sente a velhice a dar-lhe pancada, enquanto lhe desce pelas costas, feita de palavreado cheio com adjectivos e muitas onomatopeias... Pam! Pam! Pas! Tras! Pam!
Dói, decompor-se assim.
Acaba por lamuriar uma ladaínha murmurada... tanto, que é quase inaudível...

Uma palavra calada
Feita de letras mudas,
A boca aberta
Feita de sons e silenciada
Em provações de vida...
Perdida,
O sentir amargo do doce
Que trai o sabor com o vício,
Que mata de forma precoce,
Que mata no o fim do início...
São coisas que moem o ser
Em redemoínhos de suplício.

Sofre o sangue por querer correr
E não ter veia que o aconchegue,
Sofre a carne por querer beber
E não ter sangue que lhe chegue,
Sofre a pele por querer aquecer
E não achar massa que a queira ter.

Fica deitado a pensar, mais uma vez, na velhice. O corpo ainda não o denuncia... pelo menos quando se olha à vista desarmada, desamada, desmamada..
Cegos! Cegos! Cegos! Cego é quem não vê porque não quer. Cegos!
O gajo está lá e mostra-se, clarinho como a água enquanto o gémeo narciso, sempre ele, envaidece com os não defeitos e as palavras caras.
Palavras... palavreado rebuscado elegante, ofegante, com falta de ar, velho, asmático. Depois, lá vêm as onomatopeias da porrada.
Ai.
E a carne que está debaixo da pele? Pois, essa.
A pele lacera-se, a carne macera-se e a velhice cai em cascata costas abaixo, enquanto se agarra aos dizeres que destoam. A estúpida! É sempre assim. Fatalmente assim.
Houve uma altura em que ele tentou revirar os olhos para se ver por dentro e descobrir de tinha forma de rejuvenescer mas desistiu, não fosse lá envelhecer mais depressa, no processo.
E pronto... resignado, guardou-se para o tempo e continuou a palavrear tanto quanto podia.

Valdevinoxis

(este foi inspirado num dizer do Saramago: "A estupidez não escolhe entre cegos e não-cegos" disse ele - http://diario.iol.pt/cinema/jose-saramago-nobel-ensaio-sobre-a-cegueira-filme-eua/998076-4059.html)






Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=57283

A cruzada - Valdevinoxis -

Um dia fiz-me rei
E corri por aí numa cavalgada sem lei,
Deram-me um cognome impronunciável
Para marcar o mundo com as patas do meu cavalo...
Saí do meu castelo mais altaneiro
Que caía à razão de uma pedra por dia
Num rolar pela encosta do monte maior
Atrás das outras que já tinham descido.

Carreguei sobre gigantes e pequenos
Com o braço armado de espada e força,
Com o peito inchado de bandeira e pátria
E bradei tudo o que tinha
Em cima de tudo o que vinha...
Fiz-me rei e dono e quis ser imperador...
O mundo marcado era pouco para o meu cavalo
Que corria de cascos no chão e crina no vento.

Que fosse império, então,
Que o reino já me cabia numa mão!

Assim, um outro dia fiz-me imperador
E mandei a guerra fazer-se sem mim
E mandei construir o maior de todos os palácios
(daqueles que não caem nunca)
E mandei nascer mais soldados para a minha tropa
E mais cavalos para marcar o mundo que faltava
E mandei tanto que me esqueci de não mandar...

No fim sem que me apercebesse, sem que mandasse,
Sentei-me no trono para descansar
E o meu cavalo morreu com falta de mundo.

Valdevinoxis
(Reedição. A música é "Perfect Sense, Part I" de Roger Waters)






Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=56427

A lágrima da preta - Valdevinoxis -

A morte mostrou-se viva
na lágrima de uma preta
que lhe traçou uma linha descorada
sobre a cara mastigada e sofrida...
a morte mostrou-se com vida
para estar, para morar com a mulher
que cantava para quem partia.

A pele quente do sol, escura de breu
escondia, por baixo, o seu sangue
tão vermelho como o teu,
tão verdadeiro como o meu
que regava um espírito de raínha...
um espírito que nunca morre.

A lágrima da preta escorre,
cai no chão e não molha...
o calor não deixa!

O preto da preta
caíra mutilado, desiquilibrado
em guerra de que não sabe...
também esta com rogos de choro,
também esta com a morte viva...
em todos os buracos do chão.

A lágrima da preta
é toda africana...
salgada, sofrida, seca
e sem escolha.

Valdevinoxis
(reedição. Música: "The great gig in the sky" pelos Pink Floyd)






Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=56324

As coisas que importam - Valdevinoxis -

Coisas, coisas
e outras coisas
que aparecem sempre...
que aparecem sempre,
sempre em qualquer lado,
oportunas ou nem por isso,
necessárias ou até nem por isso
mas que indiciam o fado
de mais coisas
que sempre aparecem.

Com grande desdém
lá vêm e lá vão
e vão e vêm,
repetidamente até mais não...
ou sim ou não,
como com ou sem,
coisas da razão
que só sabe quem tem...
que só sabe quem tem.

Outras coisas,
mais coisas e coisas
que se tocam,
que se afastam
mas que se voltam
e já não se afastam,
dançam e rodopiam
no meio de qualquer coisa...
no meio de qualquer coisa.

Coisas sem importância,
mesmo sem importância
mas que importam
muito, muito,
tanto que ficam
sempre no peito,
bem dentro do peito
que enche, incha e alarga...
que enche, incha e alarga
com estas coisas.

Valdevinoxis
(Texto reeditado. Música: "Song to the siren" por This Mortal Coil )







Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=56015

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