José Torres

O sol nasceu ontem nos teus olhos - josetorres -




O sol nasceu ontem nos teus olhos. Não sei o que aconteceu. Não perguntei.
Desceu a rua do nosso amor, rolando como criança. De sorriso no rosto, e relva na roupa.
E que saudades tinha do seu calor, do seu cheiro a vida, da preguiça demorada do teu beijo.
Nos últimos tempos a chuva caiu teimosamente dentro de nós, molhando as memórias da nossa vida comum, dos filhos que guardamos em doca seca, barcos de papel que um dia largarão amarras a um vento conhecido, para além do que somos.
Mas ontem trazias o sol nos olhos para me aquecer a tristeza, para curar as feridas e seguir em frente a viagem de tantas tormentas feitas, como se isso fosse a própria razão de ser das estrelas que semeamos no céu, lavradores dos sonhos que já fomos.
Penso mesmo que me esqueci de te dizer que te amava quando me encontrei novamente marinheiro na geografia quente do teu sul, navegando o teu corpo para além das palavras, por tudo o que ainda não vivemos, sem receios nem medos.
Mas não te preocupes, digo-te hoje neste texto novo que me nasceu nos dedos.



Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=50098

O rio do esquecimento - josetorres -

Lenda do Rio Lima
http://1.bp.blogspot.com/_DTOUfW3q30Y/SLQxJ1YnCRI/AAAAAAAAAPg/lKYkhV54LsU/s1600-h/rio+lethes.jpg________________________________________

Tapeçaria de Almada Negreiros existente no Hotel de Santa Luzia em Viana do Castelo
" Comandadas por Décios Junos Brutos, as hostes romanas atingiram a margem esquerda do Lima no ano 135 aC. A beleza do lugar as fez julgarem-se perante o lendário rio Lethes, que apagava todas as lembranças da memória de quem o atravessasse, os soldados negaram-se a atravessá-lo. Então, empunhando o estandarte das águias de Roma o comandante chamou da outra margem a cada soldado pelo seu nome. Assim lhes provou não ser esse o rio do esquecimento."
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«Com relação ao rio Lima, história e lenda encontram-se tão interligadas que nem sempre é fácil delimitar onde acaba uma e começa outra.
Foi sempre a beleza do rio a provocar encómios e o sentimento de incapacidade duma expressão condigna a atrair o poder sugestivo da lenda.
Vem dos velhos tempos o processo. Estrabão designou-o por Beliom e relata ter ocorrido nas suas margens um episódio militar entre Túrdulos e Célticos.
Iam já a atravessá-lo quando surgiu entre os dois povos uma discórdia.
Lutaram e foi o sangue do próprio comandante que se juntou ao de muitos outros a macular a brancura das águas.
Desorientados ficaram os soldados e, sem comando, se dispersaram pelas margens, em luta pela sobrevivência.
Lucano chamou-lhe o "Deus do Tacitus", em virtude da mansidão com que corriam as suas águas.
Tito Lívio denominou-o "Rio do Esquecimento" ("Oblivionis fluvis ou flumen").
Surgiu, então, a sua identificação como Lethes da mitologia, que tinha o condão de provocar em todos os que o transpusessem o olvido do passado e da própria pátria.
Campos Elísios passaram, em consequência, a apelidar-se os que circundavam, isto é, as suas margens.
Mais semelhantes a jardins, no conceito mitológico; onde, segundo o testemunho de Políbio, só durante três meses do ano as rosas não floriam.
E ainda Estrabão que nos diz ser esta a terra perfeita por qualquer fugitivo de Roma.
Dentro deste condicionalismo, aqui chegaram um dia, sob o comando de Décios Junos Brutos, as legiões romanas, com as altivas águias a tremularem nos pendões.
Vitoriosas haviam pisado as terras que estavam para sul e propunham-se prosseguir.
Desciam, a justante, dos lados de Ponte de Lima e teriam iniciado a jornada desse dia em Vitorino das Donas:
"Daqui saiu Bruto pelos campos tão celebrados com o nome de Elysios a procurar lugar em que com o seu exército pudesse vadear as cristalinas águas do Lethes tão respeitadas com a fabula virtude de encantadoras." (João de Barros, Antiguidades de Entre Douro e Minho).
Encontravam-se no lugar da Passagem e fácil pareceu ao comandante a travessia.
Nesse sentido emitiu ordens, mas encarniçada se revelou a resistência dos soldados, conhecedores como eram dos poderes sortílegos atribuídos às suas águas.
Não perdeu ele a serenidade nem achou conveniente procurar convencê-los por meio de palavras.
Tomou a bandeira, ergueu-a ao alto, transpôs o vau e, já da outra margem, a muitos chamou pelo nome e incitou a seguirem-lhe o exemplo.
Por esse meio os convenceu de que, afinal, não era verdade o que a lenda propalava.
Assim exaltado nos advém, das mais longínquas eras, o fascínio deste rio que até aos nossos dias tem sido cantado por todos quantos puderam contemplá-lo.»
Conde de Bertiandos, in Lendas, 1898.

Conto: O Rio do Esquecimento Por: José Ilídio Torres

Festejava-se no acampamento romano a vitória desse dia do homem sobre a lenda, do poder de chefia de Júnio sobre as forças da natureza.
Os soldados comiam e bebiam junto às fogueiras acesas na noite, que todavia não precisava delas para iluminar as formas. A lua era gigante nos céus, e parecia juntar-se à celebração, rendida à valentia e coragem daquele comandante.
A sombra das lanças cruzadas e das águias nos pendões, difundia-se pelos chãos, na confiança longa da caminhada que os trouxera de sul.
Perto da margem, os cavalos bebiam da tranquilidade do Lethes, que inundava de roseiras os terrenos. Pequenas e bravias, mas rubras de um sangue adivinhado. Apesar de tudo, longe daquele que foi derramado ao tempo de Viriato, e que por aqueles anos era ainda uma memória fresca de resistência e valentia na voz dos velhos anciãos dos povos daqueles lugares.
Outrora unidos na defesa de um território, corria sangue Celta e Ibério, nas veias dos que eram também lusitanos.
O astuto Viriato conseguiu durante anos unir culturas diversas em torno de um ideal de defesa, infligindo amarguradas humilhações aos romanos invasores, dispostos a alargar o seu império do ocidente, conquistando esta terra de enorme valor estratégico no controlo das rotas.
Matou-o a traição daqueles que controlava com pulso de ferro, que não resistiram ao brilho e esplendor das armas, ao garbo do invasor, ansiosos que estavam por uma riqueza fácil e uma união prometida.
Mas isso já era passado. A noite daquele dia pertencia ao descendente dos Brutus romanos, cujo nome haveria de ficar intimamente ligado à história da Gloriosa Roma, que estenderia os seus tentáculos de poder por mais quatro séculos no ocidente.
Por isso, bebiam os homens com tempo, a cerveja ( uma bebida de fermentação que já se fazia nessa altura) saqueada nas aldeias, e rodeavam-se das virgens que deixavam de o ser em noites de euforia como estas e que acompanhavam os exércitos no seu caminhar, roubadas aos pais, bem como todos os alimentos e animais necessários às tropas.
As mais formosas moças estavam destinadas ao comandante e seus chefes militares.
Naquele dia Brutus achou que merecia a mais bela das formosas. Mandou chamar para o seu leito uma jovem de cabelos cor de trigo, agarrados ao longo de um entrançado de flores, filha de um druida que encontraram num pedaço de floresta, e que vivia sozinho com ela.
A rapariga apareceu à sua beira trespassada pela luz do exterior. Numa túnica branca que lhe foi dada a vestir, sem mais nada por debaixo, depois das mulheres a terem perfumado em banho de rosas colhidas às margens.
O heróico comandante tremeu com a sua beleza, ele um homem bravo e destemido. O seu corpo tinha as formas do rio, de braços longos e mãos finas, como se uma deusa se tratasse. Os olhos de água, cheios de um brilho que ofuscava, como se fazendo parte daquele que a lua exalava.
Chamou-lhe Roma.
Possui-a como um bárbaro. Ofegante. Várias vezes. Sem que em nenhuma delas a moça mexesse os olhos abertos, ou cerrasse os lábios desenhados por um estranho sorriso..
O sangue da sua desfloração, colara-se à barriga e ao sexo do invasor daquele corpo sereno como as águas do Lethes.
Brutos adormeceu extasiado da bebida e daquela prenda dos deuses com que se lambuzara, sonhando com a sua Roma de circos, de comércio, esplendor e prosperidade, sentindo-se dela um filho dedicado.
Nessa noite fora também amante dela no corpo belo de uma outra, e não viu nem reparou quando esta deixou a tenda caminhando, libertando os cabelos antes cerrados por flores, em passos que abriam olhos de luz na terra como se de rosas germinando se tratassem.
Passou por alguns soldados ébrios que não conseguiram sair da intenção de a agarrar, continuando a sua imperturbável caminhada até entrar nas águas, que não mexiam à sua passagem, para grande espanto de alguns romanos que a observavam de perto.
Todos pensaram que tal facto se deveria à bebida ingerida, esfregando os olhos para sair daquele estado de alucinação ou miragem, mas sem resultados práticos.
Alguns tentaram caminhar na sua direcção, mas sentiram as pernas presas, incapazes de se moverem.
A jovem desapareceu numa tranquilidade de morte nas águas do rio, e durante alguns minutos o silêncio foi total no acampamento. Nem um único ruído. Até que os cavalos começaram a relinchar como loucos, levantando as patas no ar, tentando a todo o custo libertarem-se das cordas, tornando impossível que qualquer um chegasse perto.
Foram avisar o comandante daquilo que se passava, vindo este embrulhado no pano que o cobria até junto das águas, na esperança de ver aparecer o corpo da malograda rapariga, que todos pensaram, ele próprio incluído, havia escolhido a morte como fuga.
-Paciência, não faltariam mulheres bonitas na caminhada. E em todas desembainharia a sua libido. – Foi o que pensou quando já se retirava novamente para a tenda para descansar. Porém algo estava diferente na noite. Como se a luz da lua tivesse crescido de intensidade, transformando em manhã a noite curta.
E assim permaneceu, até a lua se retirar e um sol forte e quente se ter erguido por detrás do promontório.
Ninguém conseguiu dormir nessa noite, e os soldados falavam já da maldição das águas, temendo que o esquecimento se apoderasse deles com efeito retardado.
Quando se levantou, e enquanto se lavava, Júnio reparou numa mancha escura que ocupava todo o seu sexo e barriga, e que teimosamente se tinha entranhado na pele, por mais que lavasse, por mais que esfregasse. Quase entrou em pânico, pois quanto mais tentava, mais escurecia aquela nódoa de cor avermelhada, marca de sangue da noite anterior que não o largava.
Decidiu não fazer qualquer comentário acerca daquele facto, pois que nervosos já se encontravam os soldados, ansiosos por largar aquele lugar dos mágicos acontecimentos da noite anterior.
Assim fez. Mandou preparar as tropas e ninguém olhou para trás quando a marcha se iniciou, convencidos que haviam perturbado os deuses naquela travessia, temerosos como não convinha para as investidas que se adivinhavam.
Ninguém viu conforme se foram afastando, um corpo nu a surgir vertical das águas, um corpo imaculado de mulher, que caminhou sobre elas até à margem e se firmou na terra, fazendo nascer rosas à medida que se afastava em sentido contrário à marcha da legião.

Os séculos passaram. Uns atrás dos outros. A memória curta dos homens deixou para os historiadores os factos conhecidos da passagem dos romanos por estas terras do actual Minho. O Lethes chama-se agora Lima, e as suas águas passam a ponte de uma das mais belas e antigas Vilas de Portugal.
Em Vitorino das Donas, no local aproximado onde há mais de dezanove séculos atrás se deu este episódio que contei, vive um homem de nome Júnio. (Nome que aparece algumas vezes na genealogia minhota. Estranhamente ou talvez não.)
É barqueiro. Atravessa algumas pessoas, poucas, que usam esse meio fluvial para chegar rápido á outra margem, em tempos de Verão, para se banharem nas águas e se refastelarem no areal branco que se avista do outro lado.
Certo dia em que conversávamos, o barqueiro, de cigarro que lhe ofereci aceso a um canto dos seus lábios e dedos queimados, contou-me uma estranha história:
Parecem falar os mais antigos da lenda da Senhora das Águas, que em manhãs de nevoeiro aparece nua como veio ao mundo nas águas daquele lugar. O meu interlocutor diz-me que ele próprio a viu quando era mais pequeno, juntamente com um primo que anda emigrado em França.
Parece que a “Senhora” fica por ali uns minutos, com uma estranha claridade nos céus, pairando sobre as águas serenas do Lima, transmitindo uma sensação de bem-estar e paz a quem a avista.
E é aqui que se dá o milagre que me conta, de olhos grandes, avistando-se neles ao fundo a sombra de uma vara estendida, sulcando as suas memórias.
"…Há muitos anos atrás, vivia por ali um casal que se dedicava à agricultura e à moagem. Habitavam um moinho acima daquele lugar. Eram felizes, pois a terra era generosa com eles, e faziam ainda bom dinheiro na moagem e cozedura do pão.
Tinham porém uma amargura na vida. A mulher não conseguia engravidar, e desejavam muito ter um filho.
As rezas nunca trouxeram o efeito desejado, muitos menos a copula. Era como se o seu amor fosse estéril, bem ao contrário da terra da qual eram filhos.
Certo dia em que passavam com o burro o açude seco, a mulher colocou mal os seus pés nas pedras, tombando para dentro do rio. O aflito moleiro tentou por todas as formas salvar a sua amada, mas esta desapareceu no espelho do Lima, de cabelos trigueiros submergidos nas águas.
Mergulhou em vão para recuperar o seu corpo, e fizeram-no todo o dia em barcos os habitantes das cercanias, mas nem sinal do amor daquele homem.
Nessa noite, enquanto rezava, na vigília da sua tristeza, ouviu passos acercando-se do moinho, que estranhamente não se confundiam com o barulho das águas a correr nas pás. Nem o da pedra de moer, que pareciam ter-se calado.
Assim que veio ao exterior, uma estranha claridade estava por todo o lado, vinda de uma lua cheia, das maiores que algum dia havia visto.
Calçando-se da sua luz, a mulher que amava caminhava na sua direcção.
Estranhamente não conseguiu perguntar nada. Deixou-se só envolver nos seus braços longos, nos seus dedos finos, fazendo amor de corpos nus nas pedras gastas pelas rodas ferrugentas na calçada.
Passados nove meses, nasceu uma bela criança. Uma menina de olhos de água como o rio, a quem chamaram Roma.
E quando lhes perguntavam porque o fizeram, fechavam-se num sorriso de rosas que estava por todo o lado.”
Contei como me contaram.


Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=49831

Sou do Norte, pois então! - josetorres -

Salazar governou durante décadas este país a partir da ideia que tinha do seu quintal.
Dizem que criava animais de capoeira, bicharada variada, e colhia os legumes da sopa que lhe ia à mesa.
Não me lembro de ter visto uma reportagem sobre isto na época. Eram outros tempos, a televisão a preto e branco, da mesma cor daqueles tempos aflitos.
Como estava ainda no início da contagem, fiz gu-gu quando o homem chegou à lua. O mesmo grunhido que fez um parente meu grafitando paredes de grutas.
E como tenho tempo para pensar, ponho-me a pensar um Salazar que não conheci, com tempo para ao final do seu dia de gabinete, regar a horta e dar de comer aos pitos…

Sou do Norte, dessa terra cavada socalco a socalco, leira a leira, eido a eido. Sou do Norte casamenteiro, pois então.
Sou duma terra de gente que se governa livre a partir do seu país quintal. Sou couve, sou batata e cebolo, melões pelo verão.
Sou duma terra de branco e de tinto, verde como a terra.
Sou dum Norte fatal que nos governa pelo que sempre fomos.
O magneto da agulha conhece-nos. Estamos sempre apontados a uma certa estrela que nos guia. Na faina dos barcos, no quintal onde criamos os filhos e cresce a sopa.
Somos do Norte, os que de cá somos.

E de Salazares andamos cheios, os que não escolhem ponto cardeal para se situarem, os que não usam bússola, nem relógio que lhes aponte o sol da jornada. Andamos cheios de ser mal governados.
Os que neste ponto estamos.
Não é preciso ser melhor que o vizinho nem prender o cão. Não é preciso matar pela água, nem ser morto pelo vinho.
O que é preciso é juizinho.

Sou dum Norte, Lusitano, antes disso Celta e Ibério e as duas coisas.
Sou a faca que matou Viriato à traição. Sou o rio do esquecimento e Júnio depois dele. Sou mar à vista, terra depois quinhentista e poço fundo.
Meu destino é o de um povo e esteve sempre traçado: navegar o mar que nasce no meu quintal, de vela erguida e garbo marinheiro, sopa na mesa e filhos pelo mundo.

Sou do Norte, pois então!

Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=49662

Gastou o silêncio num riscar de fósforo - josetorres -

Gastou todo o silêncio num riscar de fósforo e acendeu a noite nos lábios, quase cansado de esperar por quem não vinha.
As palavras por dizer queimavam-lhe a garganta. Segurou-se num copo meio vazio, meio cheio de emoções contraditórias.
A sua vida fora sempre feita de equilíbrios precários, de arames estendidos no seu caminhar despido, sem desejar ter nascido ensinado.
Hoje porém era um dia especial. Já não tinha medo de amar, nem medo de cair. Decidira arriscar dizê-lo à contorcionista das sextas-feiras, no bar de todos os dias.
Mas ela hoje não veio, por isso tinha a sensação de que lhe faltava tudo: um sorriso distribuído generoso, um bambolear de rabo que arrastava sem querer a anca e os homens, um olhar anatomicamente impossível.
Sobrava-lhe um vazio que começava na sua frustração e acabava na vertigem de se saber só.
O ruído era uma volúpia de palavras incompreensíveis. O barman falava consigo mas só conseguia ouvir os movimentos que este fazia com a boca, num chocalhar de maxilares e dentes.
Abriu e fechou os olhos para sair daquele pesadelo mas não conseguiu.
A mulher da cobra, que bebia um líquido verde na mesa do fundo, acercou-se de si silenciosa como víbora. Abraçou-o pelo tronco, envolvendo-o de braços longos, que lhe entraram pela roupa e lhe afagaram o rosto.
Sentiu um calor mais frio que gelo no beijo, as veias a retesarem-se, a pele quase a estalar, um fio de sangue a escorrer do seu ouvido em forma de búzio.
Foi salvo por um palhaço que não parava de rir, e que saiu de dentro do bombo da banda, disparado como bala.
Caiu sobre a rede de segurança desamparado e o público bateu palmas até lhe doer as mãos.
Cansado da vida, de um destino de circo em tudo impregnado, subiu ao mastro mais alto da tenda por uma escada de corda, largando a cada degrau uma memória: o abraço que lhe faltou, a amizade que não sentiu, a mulher que não amou.
Chegou à gávea no topo quase liberto. Vinte metros abaixo rufavam os tambores e seguiam-no os holofotes de uma ribalta com a qual não se identificava.
Ergueu os braços e lançou-se decidido por um túnel de luz sem fundo.
Os gritos sucediam-se junto ao chão, e os olhos de tão abertos pelo desespero, não viram umas asas longas que riscaram o ar como um fósforo, num segundo que de tão efémero cabia nele o mundo.
Numa qualquer sexta-feira, direi aquela mulher que não veio naquele dia, o quanto me custa a palavra e a minha própria desdita, pelo homem que todos os dias por mim arrisca, pelo rastilho que é a minha escrita.

Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=49299

A terra dos porquês - josetorres -

Era uma vez na sua vez a Terra dos Porquês. Sociedade simples e perfeitamente organizada.
Porquê era o chefe de estado e Porquê Porquê, o vice.
A hierarquia era simples: quem tivesse menos porquês a perguntar, mais alto subia na ordem do estado.
Porquê Porquê Porquê, era o tesoureiro do reino. Tinha uma única filha, que era Porquê elevada à 69ª, facto que embaraçava o homem do tesouro, pois fosse qual fosse a sociedade, este número era uma espécie de maldição. E nem sequer valia a pena perguntar porquê, na sua vez.
Um dia, aquele que geria as finanças do reino, perguntou à sua primogénita porquê?
Porque é que não fazia um esforço por sair da cepa torta, de ser, por exemplo um 68?
A filha respondeu-lhe que gostava de ser assim. Sem mais nem menos porquês.
O pai foi então pedir uma opinião ao Porquê Porquê Porquê Porquê Porquê, porque não se dava com o Porquê à quarta.
Perguntou-lhe como podia fazer para fazer sair a sua filha do 69ºposto.
Este respondeu literalmente:
- Meta uma cunha!
Sem mais porquês, meteu-se ao caminho. Foi falar com o Porquê Porquê Porquê Porquê, Porquê Porquê.
Este homem elevado à sexta, ponderou a solução, coçou o queixo e gesticulou:
- Sou Ministro do Ambiente, tenho que olhar pelos meus rebentos. Um desgraçado filho meu, teima em cobiçar o lugar, que é no fundo aquele que você, na vez da sua filha, quer destronar…
- Compreendo. - respondeu o tesoureiro da Terra dos Porquês, sem mais nada a perguntar.


Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=48921

Aquela que me amava pariu - josetorres -

Aquela que me amava, que procurou a minha casa para partilhar os meus afectos, que mo pediu de cabeça baixa; a mim e ao Paiva, que estava comigo nesse momento, pariu ontem 5 belos cachorros.
A safada da boxer que me amava, já revelava algum embaraço, nos ultimos dias, e foram os meus filhos, que de olhos faiscando me contaram a novidade, estava ainda só o primeiro nascido.
Mais uma vez, esta casa revela toda a sua vocação de luz e vida, depois de há dois anos, uma Dalmata que me amava, ter dado à luz por duas vezes 11 cachorros...
Consegui por vinte e duas vezes que vinte e duas pessoas tomassem conta dos malhados, mas estou apreensivo relativamente a estes cinco.
Na aldeia, há uma solução rápida para estes casos: afogamento.
É uma espécie de controlo malvado da natalidade, que não me agrada.
Sei o papel que o cão desempenha na célula doméstica aqui do lugar, sei que vive amarrado por uma corrente a uma árvore ou poste uma vida inteira, mas os meus não.
Sei que sou criticado, sei que rogam pragas ao Gaspar quando acompanha os carros a ladrar, mas não sabem os outros que esta é a sua forma de afirmar o seu garbo e a sua liberdade.
E depois, o Gaspar é cão que ladra mas não morde. Aliás, como o dono.
Se algum dos amigos aqui quiser tornar-se amigo de um dos filhos da "Maluda", a cadela boxer que me ama, basta fazer-se à estrada...
A Bea e o Gonçalo não os largam, perante a conivência meiga da mãe, mas sabem que não nos pertencem.
Pertencem à vida e estão à espera de quem os ame.

Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=48598

Filho Adónis de um Deus desconhecido - josetorres -

Nunca foi aos Jogos Olímpicos, mas fugindo do touro, salta por cima de muros em estilo Flop, caindo de costas em colchão de palha no celeiro da quinta.
Corre mais que o cão, seja em plano ou com obstáculos, e lança longe a vassoura que lhe metem nas mãos.
Levanta pesos bem medidos em sacos de ração, faz ginástica para apanhar as galinhas fugidas da capoeira. Pratica equitação numa égua coxa que nunca foi ensinada.
João Sem Nome, nunca foi aos Jogos Olímpicos, mas pedala como um desalmado para chegar à mercearia do povoado de recado cravado nas pernas, a cada vez que a voz de partida do patrão soa aos seus ouvidos como um tiro.
É rapaz novo ainda. Franzino porque come mal, voluntário à força do trabalho mal pago, por força de um destino sem progenitor conhecido. Filho de uma mãe que se perdeu no vinho, e nunca se encontrou em parte incerta que fosse.
A quinta é o seu estádio.
Por vezes, quando a imaginação lhe pede, solta-se dos sapatos rotos e calça-se de “bicos” de corrida, para voar pelos caminhos, qual pista sem marcações, qual gazela africana sem rumo, quase fugindo. Depois, regressa sempre com eles desapertados no pescoço, para se deitar com a noite, coroa de louros na cabeça. Glorioso. Feliz. Apesar de ficar instalado em colchão de feno e as telhas terem nome de estrelas.
Enquanto vai fechando os olhos, vai diminuindo o burburinho das bancadas, o aplauso mágico que o faz viver um sonho como se isso fosse a sua liberdade e o seu direito. Único.
Filho Adónis de um Deus desconhecido, que dorme no regaço da mãe natureza, João Sem Nome é feliz de se pensar grande, e isso é pensar mais alto, mais forte e mais longe.
As manhãs acordam-no pelo Galo altivo da frincha da janela de tábuas. Trazem um pedaço de broa nas fraldas e uma malga de leite quente nas tetas da dedicada Marinheira. É todo o alimento que precisa para sentir o cheiro ao novo dia, e chegar ao campo de treinos que é toda a paisagem que os olhos vêem.
Quando o sol se puser aborrecido no panteão que é celeiro, haverá mais um dia contado em cada passo de gigante, umas asas de Fénix na sua alma sempre renascida, um herói cuja vida nunca foi conhecida, mesmo sendo a vida sua amante.



Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=48407

Um mundo perfeito - josetorres -


Era uma vez um mundo perfeito para os que viviam nele. As pessoas podiam aspirar a ser aquilo que quisessem, podiam confiar nas suas competências adquiridas, nas suas aptidões, e desenvolver o seu trabalho com prazer.
Não havia nele políticos, nem partidos, nem acólitos, nem servis, nem incompetentes, nem funcionários.
Não havia, porque cada um tinha a humildade de ser dono de si mesmo, membro igualitário de uma sociedade por acções, em que o produto a distribuir era feito de coisas tão palpáveis como amizade, solidariedade e progresso.
Cada um dos faltosos nesse mundo perfeito, era perfeitamente identificável nessa sociedade. Não se vestia de forma diferente dos outros, não se deslocava em bons carros, nem o compadrio era razão do seu sucesso. Antes pelo contrário, os sinais da sua fraqueza vestiam-no nu aos olhos de todos.
Mundo perfeito assim, só tinha um senão: O inimigo passado de cada um era agora seu irmão.
Muitos conseguiram-no, e os outros todos não.




Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=47834

Poemas ao vento - josetorres -

Escrevia poemas em pedacinhos de papel, apertava depois neles as emoções com um laço de fio norte. Prendia-os a balões que enchia com hélio, e que largava do telhado da casa.
De cada vez que o fazia, subiam ao céu, rios e mares soltos por um fio, amores que movem montanhas por insuspeito pavio.
Dizia a si próprio, em cada um desses momentos, que o poema havia ganho pernas, que de tão livres, eram asas a cada instante, cumprindo cada um seu destino de vento e maré.
E repetia este gesto consoante escrevia, consoante se exprimia a cada vogal. Um balão um poema, uma viagem sem rota certa para acontecer.
Por vezes imaginava um alguém a quem caiu um poema seu no nariz. Imaginava a sensação de espanto, quiçá curiosidade que o faria desenrolar as letras, que faria saltar as emoções, lidos fossem os olhos.
Imaginava o camponês, o professor, o padre, o pastor, o poeta e o profeta, mais o idealista e o pragmático, o alegre e o sorumbático; em cada homem ou mulher, criança ou velho, fizesse isso diferença.
Imaginava que imaginava até.
E nunca pensou sequer em editar um livro.
Escrevia pelo vento.
Certo dia, o poeta que assim se exprimia, deixou de lançar balões do telhado da casa.
Já não escrevia que não fossem Actas de reunião, documentos standard da burocrática engrenagem onde se movia agora.
Fora promovido a inspector chefe dos estudos por fazer. Um cargo tão importante, que o futuro não adivinhava nenhum outro capaz de maior nobreza.
Embrenhou-se na rotineira certeza dos dias e esqueceu-se que se é poeta a vida inteira. Não se escolhe a data do nascimento, mas antecipa-se a morte em cada suspiro de letras, em cada balão de vida largado ao vento.
O passar dos dias criou nele uma espécie de sentimento de revolta, primeiro para consigo próprio, depois para com os homens de negro que povoavam as suas Actas de reunião.
As gravatas e os seus padrões faziam-lhe febre, mais as pastas atafulhadas de papéis, mais as secretárias e os computadores, mais os relógios.

Hoje não conseguiu ir trabalhar.
Passou toda a manhã junto do rio poluído da cidade onde vive, e achou fantástico o insólito voo baixo de uma garça rosada, que a determinada altura riscou os seus olhos fixos nas águas.
Afinal ainda havia esperança…
Escreveu um último poema, que largou numa garrafa arrolhada ao sabor da corrente.

Amanhã, quando os sinos dobrarem por si, e seu corpo inchado de água estiver finalmente editado na sacristia poluída da cidade onde vivia, talvez o destino de alguém se cruze nas suas palavras, ou talvez não…
E suba este texto aos ares de balão.




Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=47419

Era um quase poema - josetorres -

Era um quase poema que salivava por um final pavloviano, daqueles que metem um cão sem dono, insensível a campainhas, mas que abocanha o bife das coisas por dizer.
Era um quase estilo de vida, sem método aparente que não fosse armadilhar palavras como isco, que fizessem salivar um homem na necessidade de escrita.
Era o que ainda não era, o poema inacabado.

Uma mulher é sempre um ventre de coisas por dizer, e tomara que tâmaras sem dono florissem nos seus segredos. Os jardins da escrita cresceriam sem medos.

Salivo sempre por um final de poema. Minha boca de palavras de tâmaras por dizer, cruza-se no beijo narcísico do ventre que me gerou.

Morri no derradeiro dia em que nasci, pelas mãos de uma parteira que nunca mais vi, e
acredito piamente, que a parteira que me pariu é aquilo que ainda não escrevi e sou.




Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=46873

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Luso-Poemas - Poemas de amor, cartas e pensamentos
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