José Torres
Era um quase poema - josetorres -
Era um quase poema que salivava por um final pavloviano, daqueles que metem um cão sem dono, insensível a campainhas, mas que abocanha o bife das coisas por dizer.Era um quase estilo de vida, sem método aparente que não fosse armadilhar palavras como isco, que fizessem salivar um homem na necessidade de escrita.
Era o que ainda não era, o poema inacabado.
Uma mulher é sempre um ventre de coisas por dizer, e tomara que tâmaras sem dono florissem nos seus segredos. Os jardins da escrita cresceriam sem medos.
Salivo sempre por um final de poema. Minha boca de palavras de tâmaras por dizer, cruza-se no beijo narcísico do ventre que me gerou.
Morri no derradeiro dia em que nasci, pelas mãos de uma parteira que nunca mais vi, e
acredito piamente, que a parteira que me pariu é aquilo que ainda não escrevi e sou.
Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=46873
O Mário é Só ares - josetorres -
Um tipo assinar um livro é das coisas mais abomináveis que pode acontecer.O Mário assina os livros que tem na sua biblioteca.
É espantoso como este homem me persegue, mesmo eu não sendo uma primeira edição.
Senta-se na minha sala a sete chaves nomeando escritores mortos, e eu, que sei usar a minha inteligência, fecho-me propositadamente num ovo, e deixo que jogue bilhar comigo.
Livre.
Enquanto vejo a “dois” descalçando os meus olhos de fim de dia, vou-me poupando às novelas da vida real, e livro-me da estética milionária dos concursos.
Sinto-me limpo, porém o Mário da “dois” na minha sala não dá livros a ninguém.
Guarda-os para o neto que cursou história.
Eu tenho netos nos olhos.
Cataratas de que me safo pagando a um funcionário público com bigode que tenho sentado num dedo.
Muda-me lento de canal.
Veneza já viu uma morte entretanto.
O Mário nunca escreveu um romance, mas tenciona fazê-lo.
Já pode envelhecer tranquilo e ser Só ares.
Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=46731
A rapariga que falava com o vento - josetorres -
Nasceu numa terra que é cabeceira dos montes, enclave de verde e urze que se adivinha quando se dorme.Margarida assim era a flor dos olhos de seus pais.
Nasceu calada, o que provocou estranheza nos médicos, e foram preciso duas sapatadas bem pregadas no rabo para que acordasse da sua longa hibernação dos tempos.
Era graciosa a pequena. E quando os cabelitos começaram a despontar, logo se enrolaram em carrapito, conferindo-lhe uma graça que todos achavam peculiar, de olhos vivos, como lumes que brilhavam com luz própria no escuro, de uma serenidade nunca vista às estrelas.
Porém, da sua boca desenhada em alabastro, nem um som, nem um choro. Mesmo quando já tinha idade suficiente para articular palavras.
Os pais, ansiosos por se verem nomeados, nunca dos seus lábios ouviram as palavras mágicas, embora a pequena parecesse entender tudo o que lhe era dito, respondendo pelos olhos, que ganhavam cor e brilho em cada resposta dada.
Os médicos não encontravam justificação que à luz da ciência servisse para explicar tão curioso fenómeno. Não encontravam razões clínicas que deixassem tranquilos os progenitores.
Por isso, não foi de estranhar, que sendo gente simples do campo; habituada a exorcizar o mau-olhado e a agradecer ao senhor as dádivas que a natureza decide sem consultar o divino, se entregassem a rezas e práticas de ancestralidade garantida. Coisa quase certificada, como o leite ou o vinho.
Mas nada produzia o efeito desejado e quem pagava era o galinheiro, que via toda a galinha preta ser sacrificada, à moda de S. Bartolomeu do Mar.
Houve mesmo um Verão, quando já devia ter perto de 5 anos de idade, que a levaram até à simpática povoação do litoral de Esposende, onde todos os anos em Agosto a praia se transforma em romaria, os peregrinos em banhistas e os sargaceiros em enviados de Deus, num curioso ritual para afastar a gaguez e outros males.
Consiste a prática em mergulhar sete vezes os anjinhos nas águas geladas do atlântico, e depois com uma galinha preta nas mãos andar em volta da capela, pagando promessa.
Não resultou.
Continuou muda aquela Margarida bela, como mudas eram todas as flores do campo espreguiçadas ao sol, no sopro silencioso do vento através delas.
Sorria quando queria e também chorava. Lágrimas como seiva a escorrerem-lhe no rosto.
O seu maior prazer era correr descalça pelos campos, ou enfiar flores numa agulha ferrugenta, por um fio de liberdade que terminava atado no seu pescoço, ou nos pulsos, ornamentando-se numa espécie de cerimonial.
O dia terminava sempre da mesma maneira: Fitando os montes tranquila, sentada num penedo rombo, conhecido na povoação por cabeço da velha.
Ficava por longo tempo de olhar fixo no horizonte ondulado, imóvel, que até os pássaros vinham poisar no seu ombro, puxando fios dos seus cabelos com os quais construíam os ninhos nas primaveras repetidas.
Era sempre aí que a procuravam a cada vez que o cuco no relógio da sala, quase rouco das horas dadas, se impacientava pela demora.
E foi crescendo aquela Margarida. Viu o seu tronco ganhar graciosidade. As mãos finas como pétalas.
Uns seios redondos que tinham neles as formas dos montes, adolescentes como sempre serão as formas da terra, em perpétua mudança, em constante devir, fosse dada aos homens a fortuna da vida eterna para o poderem observar.
Continuava porém a sua boca larga apertada para as palavras. Dela ninguém ouvira algum dia que fosse um lamento, um anseio, uma cantiga de moça para espevitar os rapazes entretidos das fisgas.
Havia um na povoação de quem gostava. Chamava-se José. Eram colegas na escola, que Margarida frequentava com bom aproveitamento.
Apesar da limitação da oralidade, a jovem aprendeu sem que lhe tivessem ensinado. Conhecia todas as palavras, que juntava como por milagre em belos textos, prosas feitas de mil encantos, cheias da natureza generosa dos lugares.
Era a única forma que usava para comunicar com o mundo. Escrevendo.
Um verdadeiro milagre, diziam todos.
E foi pela escrita que um dia, passados alguns anos, comunicou o seu amor a José.
Depositou-lhe nas mãos uma carta com cheiro de feno, translúcida como as nuvens, onde letras desenhadas a azul se acotovelavam ansiosas pela boa nova.
José leu-a debaixo do castanheiro velho do largo. Letra por letra, palavra por palavra, e no final sorriu.
Procurou mais tarde a sua amiga pelos caminhos, até chegar junto do grande penedo, cuja forma se assemelhava a um rosto enrugado de mulher, de nariz verruguento e boca aberta.
Ali estava sentada no topo. Colar de flores ao pescoço, transparente num vestido fino de céu.
José acercou-se sem dizer palavra. Colou os seus lábios nos lábios doces de Margarida, dizendo tudo através daquele beijo.
Deixaram depois que as mãos fabricassem a seda com que se fecharam num casulo de amor eterno, descobrindo-se feitos um para o outro, de corpos colados num longo suspiro: O primeiro de Margarida.
Vivem hoje, felizes como borboletas na casinha branca que se avista da colina dos sonhos, e continuam a nascer crianças estranhamente caladas para lá dos montes.
Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=46561
Um quase soneto d’amor - josetorres -
Sei que sabem a especiarias os teus lábios,Os teus seios a laranjas acabadas de crescer.
Sei do aroma a cidreira no teu ventre
No cheiro quente dos dias por acontecer
E na geografia solitária dos astrolábios
Teu corpo é perdida carta de marear
Meu porto e meu destino de sempre
Mares nos olhos sem sair do lugar
Conheço-te como quem sabe o seu destino
A exacta hora de tudo o que faz falta saber
Conheço-te sem sequer te conhecer
E se me perguntas porque sofro em desatino
Semeando Nortes em cada pedaço de tino
Respondo-te pelo vento sem querer
Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=46176
Sou um vaidoso que se inspira nele próprio - josetorres -
Sou um vaidoso que se inspira nele próprioUm bico de cegonha
Sou mais um caso de doping no ciclismo
Um sem vergonha
Por querer alcançar o céu
Queimei com álcool as asas do meu voyeurismo
Fiquei cego como se tivesse fumado ópio
Um sem vergonha
Sou eu próprio um vaidoso que se inspira
Em cadernos de linhas de ferro
Um batráquio que arrota quando respira
Um príncipe-sapo de lego
Um sem vergonha
Que pariu uma montanha e se sente um rato
Que pariu o rato que a montanha pariu
Que se sente
Como se deve sentir bem sentado
Todo que se sinta tentado a ser
Mais que as vaidades de ser amado
ESCREVER
Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=46002
Poema maldito - josetorres -
Espetaram-lhe uma estaca no peito, mas o diabo que era a preceito esquivou-se para o fígado e começou a escrever:Sou bílis, sou o teu calcanhar
Sou falo que não calo a crescer
Um cancro a desenvolver
Que não vais conseguir matar
Nasço em cada poema vagabundo
Filho de prostituta mal paga
Tenho mais irmãos no mundo
Cinco dedos na mão que te afaga
Chamaram então o Cura com esperança de uma solução para eliminar o belzebu, mas o pobre velho ao susto não resistiu, pois o diabo mostrou-lhe o cu e mandou-o para a puta que o pariu:
Pode vir o padre mais valentão
Armado de água benta, reza e sal
Serei eu a dar-lhe a extrema-unção
Neste meu mundo dominado pelo mal
Desesperados estavam todos os que eram crentes, pelo definhar do homem que um dia foi normal. Isolaram-no numa casa sem portas nem janelas, mesmo assim ouvia-se no quintal:
Podeis cercar-me de cimentos
Apagar o meu nome dos livros
Estarei sempre nos pensamentos
E todos os sonhos serão frívolos
Porque nasceu comigo a guerra
E na minha essência vive o guerrear
Encherei de luto e fome a Terra
Mesmo quando este corpo for a enterrar
Parecia não haver solução para aquele praguejar.
O chão deixou de dar fruto, secaram os animais e toda a vida que antes era bela. Tomou conta a sombra daquele lugar chamado Terra.
Morreu a própria morte com ela.
Até que um dia, quando já mais ninguém restava no mundo, uma estranha nave poisou naquele planeta esquecido.
Um ser de pequena dimensão furou o chão com uma sonda, introduziu naquele buraco estreito uma semente.
De regresso à nave que era só luz, já fechado na sua cripta, o pequeno ser viu piscar o único olho que a mãe a seu lado tinha.
Como quem diz: - Bravo meu filho, estás um Homem.
E recomeçou tudo outra vez.
Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=45813
A culpa foi do Abafadinho - josetorres -
Fiz-me ao Alentejo de viagem por estes dias. Trazia na bagagem saudades desta terra. Bem acomodadas nas minhas lembranças estavam as cores, os cheiros, a gastronomia e as gentes.Cheguei madrugada dentro a Estremoz. Da janela do meu quarto de hotel vi o castelo a espreguiçar os longos braços, vi a planície deitada aos pés dos montes, e um ventre de vinha aberto para me receber.
Eu nunca tinha saído dali, pensei. E dormi rápida a noite.
A manhã deu-me boleia na carrinha do gerente até à povoação. Pelo caminho, cinco longos minutos de conversa simpática serviram para me situar. Uma ou outra sugestão de visita, um ou outro monumento obrigatório, mas uma só referência para almoçar…
Os meus passos perderam-se pelas ruas apertadas, na calçada gasta, até o meu apetite me falar pela boca do estômago:
- Adega do Isaías…?
Foi esta a pergunta que fiz a quem sem esforço me disse:
- Vira à direita e logo à esquerda.
E ali estava eu. Cheirava a história e tradição a casa, bastante concorrida aquela hora. Nas paredes, fotos de personalidades conhecidas da política e das artes, artigos de jornais, recordações de 50 anos de existência, numa decoração em que nada estava a mais. Tudo tinha uma função. A de fazer rodar os olhos de quem via, que o nariz, esse há muito que escutava o suave chocalhar dos tachos em parceria com os ouvidos que cada cheiro tinha.
Eu estava ali com os sentidos todos despertos; perfeitamente integrado naquela paisagem de aromas, à espera da minha companhia, preparado para a surpreender.
Assim que chegou, de papéis debaixo do braço, logo se soltou largada sobre as morcelas e os queijos. De queixos como eu.
Almoçamos Migas.
Voltamos ao local do “crime” – o da gula, nessa mesma noite, para comer as “burras”. O mais famoso prato inventado pelo patrono daquela instituição: O Senhor Isaías, que hoje, aos setenta anos de vida, tem o negócio entregue ao filho e a fieis funcionários com a mesma idade da casa.
Estas “burras” são as cachadas do porco, os maxilares do animal, assados no forno. Uma coisa divinal, pela maciez da carne, pelo paladar, pela presença das ervas de cheiro.
Havia na parede um artigo com quinze anos do jornal “o século” que mostrava o mestre em primeiro plano e falava das “burras” como se de poesia se tratasse…Fiquei contente por não ser o primeiro arauto da realeza do prato…
Pelo final da refeição, a conversa que levava na asa o vinho branco da região, guiou os meus passos até ao bar, até á palavra que se partilha generosa com quem está, as gentes da casa e quem bebia ao balcão.
As conversas falaram de um só país, de um só calor, de um só povo.
Receitaram-me um Abafadinho…
- Beba, que isto é uma maravilha…
Bebi o dito cujo e vários irmãos. A suavidade da bebida contrastava com a história de riqueza dos mármores de outros tempos, com a desventura de quantos resgataram a pedra ao chão torrado e o regaram com o seu suor, a esperança de riqueza que parou só nos bolsos de alguns, que para todos os outros, era hoje pedra no sapato.
Despedi-me agradecido daquelas gentes ofertando à casa o meu último livro que fala de histórias de água e areia.
Dediquei-o ao Senhor Isaías, que apesar de não ter conhecido pessoalmente, senti a sua alma viva naquele lugar, como um coração pulsante, de generosidade feito, dizem-me.
Antes de sair uma última olhada à sala. Na mesa onde jantei, uns dentinhos perfilados em duas cachadas, fitaram-me rindo…
- Seus malvados, pensei…
Mas foi só na manhã seguinte, mais enjoado que marinheiro de água doce em alto-mar, que percebi o estranho sorriso irónico daqueles maxilares.
Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=45613
Um texto para o Miguel electricista - josetorres -
O Miguel, electricista de profissão, agora no negócio dos softwares inteligentes para casas, rapaz meu conhecido e amigo, comprou-me no outro dia o meu recente livro de contos.Estava com uma certa ansiedade, confessou-me, por ler a história que eu tinha escrito dedicada à malta de Barbudo, (conto “ A última cartada”) e descobrir os nomes de alguns que ele conhece…
Fui-lhe dizendo que, apesar de ter trazido para a narrativa nomes e alcunhas de gente que é costumeira no café do "Chico" (um que entra também…), tratava-se de uma fantasia minha, de um devaneio literário, que vivia tanto em alguns relatos escutados como na mais pura imaginação.
E assim ficamos. Ele com vontade de ler, e eu de saber a sua opinião…
Encontramo-nos uns dias depois.
Assim que entrei no “Chico”, fui recebido à entrada pelo Manel, que quase me barrou o caminho do alto do seu metro e noventa e tal. Tive que olhar para cima para o ouvir dizer:
- Com que então, o "Manel Fininho"… Sim senhor…
E riu-se… Penso que o riso dele me pedia um livro, que ainda lhe vou dar…afinal usei a sua figura sem pagar direitos…
Miguel almoçava ao fundo.
Levantou o braço para o meu rodopio à procura da cola para juntar ao whisky. Gelo já eu tinha apanhado na arca.
Assim que cheguei perto, ligou-se à terra e disparou eléctrico para mim:
- Que grande cena. Tá demais a história…E o "Chico", a quem a mulher comprava after-shave Denim na mercearia do Neca, e que penteava o cabelo com as mãos engorduradas do molho do almoço…Um show!!
Disse isto no preciso momento em que o "Chico" passava com uma travessa na mão, gorduroso e escorregadio.
Olhei-o nos seus olhos que ouviram a conversa, mas não se riu.
Miguel pediu-me nesse dia, porque tinha levado o livro para as aulas de certificação de competências, que lhe fizesse um resumo da história, mas como se fosse ele a escrever a coisa…
Acedi. Não podia negar um favor, a quem já me reparou de forma competente e a baixo custo, senão nenhum, tudo o que é problema constante cá em casa, desde o portão à iluminação do jardim, passando pela torradeira e a acabar proximamente no video-porteiro que ficou mudo.
Demorei o tempo suficiente para me apetecer fazê-lo. Uns dias, devo confessar.
Quando o fiz, fi-lo por ele, da forma como ele não se sentiu capaz de o fazer, porque só tem o sexto ano e anda a ver se lhe dão o nono. (É certo.)
Fi-lo falando a sua linguagem, puxando a brasa para a minha sardinha, numa curiosa sensação de plenitude.
Assim como se eu fosse o Torres electricista a falar para o Miguel escritor. Fantástico.
“Chico” pediu-me um livro com ar sério na noite desse dia
Dediquei-lho com amizade reparando a injustiça.
Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=45150
O carteiro que me toca - josetorres -
Conheço o carteiro que me deixa o correio em casa. Almoçamos próximos por vezes, e bebemos umas frescas. Sei que ele sabe da minha vida toda. Ou pensa que sabe…No outro dia perguntou-me: - Então Sr. José, agora já não recebe livros daquela editora do seu primeiro livro. Copos Editora, não era?
Já os vendeu todos?
Respondi-lhe, pedindo mais duas ao Chico:
- Sabe que é verdade. Vendi uma porrada deles.
- Não me diga…
- Ai digo, digo. - Disse eu. E o Correia acreditou.
E eu aproveitando acrescentei:
- Vários milhares.
- Fantástico disse ele. Eu até já suspeitava. Você aparece volta e meia na primeira página daquele jornal verde que eu lhe levo…Barcelos Popular, não é?
- É, é. – Respondi.
- São meus amigos sabe…A malta conhece-se, e depois eles fazem-me estas coisas…
- Oh…não seja modesto. Eu bem vejo os talões de aviso de recepção dos concursos literários a que tem concorrido…Só espero trazer-lhe a boa nova de um prémio…Isso é que era. Ah! E gosto do pseudónimo que escolheu…Alv…
Interrompi-o.
- Isso… são coisas da minha mulher…
- Ai não me fale da sua esposa…Um encanto de senhora. Ainda no outro dia deixei à sua empregada uma encomenda para ela. Vinha da América. Só podia ser coisa fina…
- Não conte a ninguém…- Disse, aproximando-me do seu ouvido levantado e olho franzido.
- A minha mulher trabalha para a CIA…
- Não me diga!
- Digo, digo. – Disse eu.
- Já desde os tempos da faculdade. Ela estudou em Nova Iorque…
- Pois, que ela é economista, não é? Recebe aquelas revistas dos técnicos oficiais de contas.
- É tudo uma fachada! - Respondi sério e empenhado.
- Mas é coisa séria??
- Sabe, isto anda mau. Fala-se que com esta malta toda de Leste por cá…
- Nem me fale. - Disse o Correia levantando a voz fina e a mão.
- Mas não há-de ser nada. Sabe que os bons patriotas levam sempre a melhor…
O carteiro que me leva o correio a casa disse então solene:
- Senhor José…Não dei tropa, nunca tive esse prazer… Mas se eles vierem por aí para nos tomarem, dou conta deles à chapada. Como fez a padeira… Juro-lhe.
- Acredito.
- Ah, e por falar em padeira…Olhe, aquele homem enorme que lhe leva o pão a casa, aquele com sotaque…Disse-me no outro dia em que estivemos a falar um bocadinho, que lhe deixou a conta na caixa de correio há já uma semana…Eu pessoalmente não vi…Mas se o senhor quiser e caso não a tenha recebido, eu peço-lhe para passar outra…Ele é um encanto de pessoa.
Bom…Foi um prazer encontrá-lo. O meu escritor favorito. Sabe que comprei o seu primeiro, e agora…quero o segundo!
- Eu ofereço-lhe um.
- Não senhor! Quero comprar…Tenho todo o gosto.
E dito isto, montou com desenvoltura para cima da Vespa 50 dos Correios. Rosa choque.
Rodou a écharpe branca no pescoço e sacudiu-a para o trás das costas, acautelando que não se entrelaçasse no pneu traseiro.
- Penso que gritou: Ohooooo! Silver. Mas não tenho a certeza.
Aliás, não tenho certeza de coisa nenhuma.
Nota do autor: Viram que bem eu terminei a história. Podia embarcar no velho cliché do “sonhei que”…Mas não.
Digam lá agora se eu sou ou não um bom escritor…
- Digam, digam. – Disse eu.
Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=44771
Aquela que me amava - josetorres -
Aproximou-se primeiro da casa, encoberta pela sombra das giestas crescidas. Depois da entrada.Chegou-se ao portão. Esperou que as crianças na sua folia abrissem de par em par a esperança.
Entrou.
Trazia no olhar um pedido para me fazer. Disse-o de cabeça baixa.
Eu e o António percebemos imediatamente as suas razões, suspeitando que por detrás da sua súplica estaria por certo uma outra história. De sobrevivência, suspeitamos.
Disse-lhe que estivesse à vontade, que comesse, que se arranjasse no espaço disponível. Fiz até as honras, apresentando os meus outros amigos: o loiro Gaspar e o negro Goya.
Era simpática a moça.
Tinha os lábios caídos, o que lhe conferia uma certa sensualidade, um ar carinhoso até... Era uma daquelas caras que apetece agarrar, beijar.
…
Tem estado por cá a retemperar forças. Acompanha-me para todo o lado e derrete-se em mimos para comigo. Uma doçura.
A minha mulher diz que a rapariga está apaixonada por mim.
Porém não creio.
Nestes últimos dez dias saiu de casa à socapa por duas vezes, passando a noite e o dia seguinte fora.
Acontece que eu já tinha reparado nas suas maminhas. Tinha os bicos muito dilatados, o que me levou a suspeitar de que deveria ter sido mãe há pouco.
Esconderia a nossa convidada um segredo?
Por duas vezes eu tinha visto um indivíduo de aspecto rufia a aventurar-se para dentro do relvado a nascente da propriedade. Espantei-o à primeira e à segunda vez, mas à terceira decidi observar os seus movimentos.
A minha hóspede veio ter com ele. Juntaram os lábios.
Seria o pai da criança, ou crianças?
…
Desapareceu novamente. Há dois dias.
Há dois dias que não dá notícias. Ela e o intruso da porta dos fundos.
Já não tenho dúvidas, aquela jovem tinha sido mãe, alimentava-se em minha casa e dava vida aos seus filhos, acampados num lugar qualquer do monte por cima da minha propriedade.
A sua felicidade quando estava connosco era a de uma fiel amiga, que jurava amor eterno a mim e aos meus.
Desapareceu há dois dias a cadela Boxer que me amava.
Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=44351



