TrabisDeMentia
Onze da noite - TrabisDeMentia -
Onze da noite. Soava a campainha. “Aposto que ele estava à espera que a hora chegasse” pensei enquanto me dirigia à porta atando meu robe. Ajeitei os cabelos ainda húmidos e espreitei pelo orifício enquanto levava uma mão à maçaneta. Do lado de fora aguardava um indivíduo cabisbaixo. Não era ninguém que eu não esperasse! Corri o trinco e cumprimentei-o com um sorriso! “Entre”, Ordenei em tom de pedido e estendendo a minha mão à sala de estar. “Sente-se ali por favor, no sofá”. Não era um jovem bonito, mas era contudo interessante. Musculado o suficiente para me despertar a curiosidade e abastado de masculinidade se bem me quis parecer. Fiquei observando-o caminhar enquanto fechava lentamente a porta. “Sim, sem dúvida o que eu estou precisando”. Dei duas voltas à chave como sempre faço quando tenho visitas. Se por um lado transmite segurança a quem vem por bem, por outro lado transmite desconfiança a quem vem por mal. E eu gosto sempre de saber em que terreno estou pisando antes de partir para a caça. Aproximei-me do jovem contornando o sofá pela esquerda e me debruçando sobre as costas deste. “E vai querer beber alguma coisa?” Ele se virou e num instante desviou seus olhos para o meu robe propositadamente entreaberto. Antes que ele se engasgasse ao me responder eu continuei - “Não tenho nada com álcool, mas tenho sumo, água...Tenho chá preto fresco, quer?”“Pode ser chá então se não se importar” disse ele retomando a posição. Atravessei a sala lentamente em direcção à cozinha. Pelo ruído quis-me parecer que ele estava se ajeitando por entre as calças. E concerteza que estava me observando. Assim é que eu gosto, de deixar meus convidados bem esfomeados antes da refeição! De mostrar à presa quem é o predador!
Não demorei mais que dois minutos. O jovem estava debruçado sobre a mesa de vidro com um ar de expectativa. “Espero que não se importe, preparei para si também!”. Não pude evitar o meu ar de surpresa. Afinal não é todos os dias que me deparo com um espectáculo destes! “Não! De jeito nenhum! Hoje vamos-nos divertir imenso!” - disse eu enquanto me ajoelhava e descortinava o porquê dos ruídos! Com um cartão de crédito ele ajeitava o risco de pó branco na minha direcção. Me estendeu uma nota de vinte enrolada sobre si mesma e me convidou. “Não! Você primeiro” retorqui lhe devolvendo a mão! Não se fez rogado! E na mesma sofreguidão que inspirou o pó se recostou no sofá! “Agora eu!”. Levei a nota á narina e limpei o que restava na mesa! Ele olhava para mim com um rasgo ofegante nos lábios e eu... Que saudades que eu tinha disto! Me sentia como que... Viva! Do meu coração partia uma sensação que se espalhava até ao formigueiro na ponta dos dedos! Fitava o jovem com meus dentes serrados, lábios entreabertos, olhar de desejo! Gatinhei até ele e me encaixei entre as suas pernas! “Era assim que me querias?” - falei sem esperar resposta. Puxei a sua camisa branca para fora das jeans e comecei pelo botão de baixo, escalando em direcção ao seu peito, ao seu pescoço. Ele me pegou nos cabelos e deixou que eu levasse minha língua até os seus lábios. Trepei para cima dele, e deixei que ele me desatasse. Sentia ele pulsando sob mim, pulsando a um ritmo louco. Como que implorando pelo meu toque ele se esfregava. Mas é assim que eu gosto, é assim que eu gosto! “Vem cá” disse eu lhe mostrando o caminho com a minha mão! “Vê como eu estou!” - O jovem não cabia em si com tanta loucura, tanto tesão. Tomou meus seios como se fossem dele e se vingou. Queria que eu devolvesse a ele o prazer que ele me estava a dar. “Mas eu devolvo, eu devolvo” -pensei. “Tira as calças” -mandei. Ele num ápice as chegou aos joelhos. Mostrava-se abastado, como eu já esperava pela firmeza das investidas. O tomei em minha mão e me apressei em aconchegá-lo em mim! A sua falta de ar estava, a cada batida, mais apercebida. Ele me olhava boquiaberto com ar de deslumbramento. Eu retorquia com movimentos mansos... Sob as minhas mãos palpitava um coração descontrolado. Cravei as unhas e demarquei meu espaço na sua boca. Sua língua me procurava numa ânsia louca. Demasiado louca para se conter num só lugar. Demasiado grande para caber num só sofá. Agarrou em mim e sem se permitir afastar me jogou no chão. Cruzei minhas pernas sobre as suas costas enquanto ele me ganhava centímetro a centímetro, enquanto palmo a palmo me arrastava pela sala. “Quero mais que isso, muito mais que isso” - eu avisava, mas ele já nem me ouvia de tão surdo que estava. Todo o seu ser se resumia num único ponto e com um único objectivo: me vencer no prazer. Encurralou-me num canto... Uma mão sob mim, outra na parede. Nada poderia ser mais perfeito. “Queres saber o que é prazer?" - Ameacei. Seus movimentos cada vez mais frenéticos eram já de um comboio descarrilado. “Queres?” - E no momento em que ele se enterrou em mim, eu me enterrei nele. Cruzei forte as minhas pernas e não lhe permiti nem mais um movimento.
Sob os meus lábios o quente sabor do prazer. Sob os meus lábios, em cada vez que ele compulsava, o doce sabor do sangue, impregnado de toxinas, me levava ao êxtase. Como leoa esperei pela morte incrédula da caça. Ali naquele canto, me satisfiz!
Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=2497
Luzes na noite - TrabisDeMentia -
"Eu vejo luzes à noiteEu vejo o céu a brilhar
Eu vejo luzes à noite
Eu estou onde não queria estar
Dou mais um passo
Hesito talvez um pouco
Mas continuo correndo
Correndo que nem um louco
Correndo que nem um louco"
Atrás de de ti
Numa noite que não tem mais fim.
Hoje tudo o escrevo se foi na poeira das nuvens
Iludido com sonhos de um grande, de um grande amor
Hoje, hoje lembrei-me de ti e resolvi te escrever
Te lembrar nas palavras
Te esquecer, por momentos te esquecer
Hoje, hoje o vento soprou noutro sentido
E me levou consigo para onde agora eu estou
Pra longe, pra bem longe de ti e eu não consigo viver aqui
Eu preciso de ti, preciso de ti junto de mim!
Hoje tudo o que eu digo se foi e nada faz sentido
Só restaram as cinzas de um grande, de um grande amor
Hoje, hoje lembrei-me de ti pois não consegui esquecer
Me lembrei dos momentos
Me lembrei da saudade de te ver
Hoje, hoje a minha vida levou um descaminho
E me deixou sozinho, me deixou a sós
Hoje parece que o tempo sobrou, que o mundo parou
Que a terra quebrou, não sei o que vou fazer de mim,
Fazer de nós
Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=639
Poço de dor - TrabisDeMentia -
Como é fácil me rir, pular de alegriaSonhar com tanta fantasia
E a seguir tropeçar, cair, bater no fundo
E chorar num poço profundo
Como é fácil brilhar e sem saber porquê
Me ver frente a um espelho que não me vê
Mas eu desvio os olhos que ninguém viu
E me procuro, me cego no escuro
Quantas vezes me afogo aqui sentado
Esperando uma mão, esperando um abraço
Que não vem e eu preciso de alguém
A meu lado
Mas cada vez que morro nasço mais forte
Pois enfrento esta vida como se enfrenta a morte
Respiro fundo e tento ter calma
E prendo os meus lábios como quem prende a alma
Como é fácil estar bem e amar a vida
E até fingir um sorriso na despedida
Mas a saudade nunca tem horas pra chegar
E se amarra ao meu peito sem me avisar
Eu bem sei que aqui é o meu lugar
Do lado de dentro, do lado de cá
Mas até que me encham de terra sonharei com cor
Neste mundo de sombras, neste poço de dor
(E é tão amargo o sabor, mas é tão doce a lembrança
chorar faz bem quando se tem esperança)
Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=73
Versos tristes - TrabisDeMentia -
Os meus versos não são tristesNão tão tristes quanto os teus
Sempre os dispo quando os escrevo
São tão nus que não percebo
Porque vestes versos meus
Não te sobra já tristeza
Não te chega tanta dor
Se a falta em força te aconchega
E a luz do nada já te cega
Porque queres do negro a cor
Porque vês nesta fraqueza
O alimento que te sustem
Quando ele não tem sustento
Nem firmeza, é um sentimento
Sem beleza, sem ninguém
Porque o levas, porque o tornas
Em versos, em noites frias
Mais tristes sei, são os teus dias
Severos invernos que adornas
Com teus lamentos e agonias
Com fortes ventos e tempestades
Sem alpendres ou alçapões
Apenas tu e os teus botões
A chuva intensa das saudades
O lamaçal das sensações
Onde tudo o que te é querido
Jaz inerte, ao chão estendido
É semente que não nasce
É vida que não reage
É fruto já consumido
Porque vens sentar comigo
Porque vens parar aqui
Se a dor que trago por castigo
Já me tem para seu abrigo
Se eu não sou lugar para ti
Por que olhas, porque choras
Porque abraças, porque arranhas
Porque beijas e emaranhas
Na mais triste das tuas horas
Meus versos, minhas entranhas
Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=57668
Inimigos - TrabisDeMentia -
Eu não tenho inimigosTenho sim amigos que me odeiam
Você sabe
A inveja joga na primeira liga
E eu sempre à baliza
Não entra nem um
Adora dar bola para caramba
É mesmo! Inimigos não tenho
Não assim, de garfo e faca
Tenho sim amigos de fato e gravata
Sempre ligo e tal
Convido para jantar
Pago a conta claro
Sou muito grato pela companhia
E você?
Jura?!
Aperta aí!
Vai um joguinho?
Ah! Tudo bem, eu deixo você pagar!
Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=53854
O segredo - TrabisDeMentia -
Quem me dera fazer contas de cabeçaQuem me dera poder dizer convicto
"Não te entendo, mas a culpa é minha"
Quem me dera a mim, quem me dera
Que fosses simples como uma simples adivinha
Mas tu és a razão que não me cabe ter
És além da minha compreensão
És assim como a origem do universo
Como o nascimento do "ser"
E ainda assim consegues ser
Real
Vem cá,
Qual é o segredo afinal?
Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=53583
Punhais - TrabisDeMentia -
Um olhar vale mais que mil palavrasSe dito assim, tão sem rodeios
E dói bem mais que mil "te odeio"s
Os dois punhais que tu me cravas
Me feres de morte enquanto lavras
No teu silêncio o meu destino
Nem serve o amor que em sangue assino
Para travar marés tão bravas
E como te explicar se eu não consigo
Ousar olhar de novo a tal castigo
Meu corpo é dor, é vida a se perder
E como te encontrar se estou perdido
Olhando a consciência arrependido
(A vergonha me impediu de te vencer)
Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=53574
Ora essa - TrabisDeMentia -
Já não posso vestir aquilo que é meuSe fui eu que o pensei, se fui eu quem teceu?
Linhas não tenho, foi Deus quem mas deu...
E o pano é de quem? É meu? É teu?
Já não posso pensar o que alguém já pensou
Se fui eu que o teci, se fui eu quem pregou?
Botões não tenho, foi Deus quem mos deu...
E o buraco é de quem? É teu? É meu?
...
Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=52898
Homens de boa fé - TrabisDeMentia -
A Natureza é como éNão adianta pensar que são
As árvores que largam do pé
As maçãs que nascem do chão
E o Homem é como é
Jura até por Deus que não
Quer a mulher do amigo Zé
Sente ciúme do próprio irmão
Insiste ser tão simplesmente
Mas ao simplesmente ser
Mata tão naturalmente
Quanto é natural morrer
E reza com a mesma mão
E a Natureza é como é
E não adianta pensar que são
Os Homens de boa fé
Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=20229
Mas tu - TrabisDeMentia -
Se tudo não fosse tão imprevisível, tão escuroSe o acaso não fosse tão certo quanto a morte
Se a vida não me enclausurasse na dúvida
Talvez não te admirasse na devida proporção
Seria tudo mais fácil, natural, espontâneo
Mas o grito fica cá dentro, devora o meu orgulho
Amarra-me num mundo só meu
Mas tu...
A minha indiferença intimida-me, corrói-me.
A minha presença rebaixa-me
Quero vegetar, mas o sol se esconde na escuridão
E tudo é lindo!
A música apodera-se do vácuo
A consciência desanuvia-se
As silhuetas perdem-se na sensação
O teu rosto voa e eu afogo-me
O coração bate, a dor vem
A timidez viola-me, despropria-me
E o sonho?!
Morre na minha recusa, reclusão
Os olhos secam de lágrimas
A sede sacia com o sal que queima as feridas
Mas quais?!
O desespero protege-me, alimenta-me
Os pensamentos acumulam-se numa última sensação
A dúvida aumenta
Já não sei quem sou nem me interessa se o serei
Mas tu...
Nem mil palavras, apenas algo que sinto
Acorrentado na mais impiedosa jaula sou um animal feroz, voraz,
ávido de sangue, de carne, de paixão, de ti
Sim tu!
Mas tu...
(Mulher, deusa, filha de Júpiter, esposa de Lúcifer)
Espezinhas, esmagas, desprezas, difamas, atormentas, sufocas, magoas, beliscas, trincas, beijas, abraças, possuis...
Eu?!
Apenas existo, observo, lamento, sofro, choro, morro.
Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=6139



