Texto de Clarice Lispector -
Por isso fiz questão de postá-lo aqui junto desse "quase -esboço" rs..Escritora, sim; intelectual, não
?Outra coisa que não parece ser entendida pelos outros é quando me chamam de intelectual e eu digo que não sou. De novo, não se trata de modéstia e sim de uma realidade que nem de longe me fere. Ser intelectual é usar sobretudo a inteligência, o que eu não faço: uso é a intuição, o instinto. Ser intelectual é também ter cultura, e eu sou tão má leitora que agora já sem pudor, digo que não tenho mesmo cultura. Nem sequer li as obras importantes da humanidade.
[...] Literata também não sou porque não tornei o fato de escrever livros ?uma profissão?, nem uma ?carreira?. Escrevi-os só quando espontaneamente me vieram, e só quando eu realmente quis. Sou uma amadora?
O que sou então? Sou uma pessoa que tem um coração que por vezes percebe, sou uma pessoa que pretendeu pôr em palavras um mundo ininteligível e um mundo impalpável. Sobretudo uma pessoa cujo coração bate de alegria levíssima quando consegue em uma frase dizer alguma coisa sobre a vida humana ou animal.?
Clarice Lispector
http://www.claricelispector.com.br
Fonte: http://borboletra2006.blogspot.com/2008/06/texto-de-clarice-lispector.html
Por sobre os campos... -
Como um olhar de relance por sobre os campos.
Nunca vemos de fato como ela é
Mas apenas os vultos que julgamos conhecer.
Espero o momento de poder olhar nos olhos, profundamente,
- Ou quem sabe apenas por um instante ?
E então, com um suspiro conformado, descobrir
Que o mistério simplesmente não existe.
Que não há nada mais a revelar.
Nada oculto, nada encoberto, nada omitido.
Apenas a Natureza,
(Que é uma realidade
E me salta aos olhos famintos)
Ou a espontânea Poesia,
Um mero delírio de lábios urgentes...
Fonte: http://borboletra2006.blogspot.com/2008/06/vida-no-fundo-como-um-olhar-de-relance.html
Ímpeto II -
Neste entardecer quase em brasaFui tomada por um indesejável
Silêncio de línguas repousando,
Letras descansando sob a ponta do lápis
E pensamentos, que de tanto acalanto,
Adormeceram...
Na varanda,
Sem outra opção a não ser permanecer,
Deparo-me com intervalos, pausas, ausências.
Consumo-os com uma voracidade toda humana
De ser e estar em cada coisa.
E sinto no silêncio incômodo
Uma presença quase sagrada
Poesia me espreitando,
Inusitada, límpida, divina,
Por entre as cortinas entreabertas
E rimas que nunca uso.
Então observo...
Um andar vagaroso, quase próximo...
Uma procissão de letras em palavras descrentes
E de repente vejo
(Com olhos profundos por se saberem urgentes)
Um sorriso no canto do lápis...
Fonte: http://borboletra2006.blogspot.com/2008/06/neste-entardecer-quase-em-brasa-fui_10.html
Degustação... -
Minha poesia tem sabores,
Textura, cores e temperaturas.
Hoje amanheceu fria,
Anoiteceu cinza
E adormeceu áspera...
Fonte: http://borboletra2006.blogspot.com/2008/06/degustao.html
Acalanto... -
Em continentes distantes
Submersos...
Palavras entre dentes e cantigas de roda,
Um cheiro de chuva por chegar,
Sopro divino de infância,
Inocência.
Poesia
(O intervalo entre a lágrima e a letra)
A transcendência me consome os ossos
E a memória...
Fonte: http://borboletra2006.blogspot.com/2008/06/em-continentes-distantes-submersos.html
Súbito -
De pão, vinho e gestos vive a fé
De olhos, ouvidos e poros a minha razão.
As estrelas engenhosamente fincadas no véu solitário
Sob as esfumaçadas visões que me restam
Repousam sobre as respostas que busco
E nada vejo
Apenas vacilo
Há uma vida pela frente
Mas quantas ficaram para trás...
Fonte: http://borboletra2006.blogspot.com/2008/06/sbito.html
-
Através das folhas cor de bronze
Que descem pelos penhascos frios
Entrevejo torres e ouço canções
Guiada pela suave brisa
Que toca meu cabelo e minha história
Como um carinho perdido numa fenda do tempo...
Fonte: http://borboletra2006.blogspot.com/2008/06/atravs-das-folhas-cor-de-bronze-que.html
Estações -
Filha esquecida da Terra
Sinto o vibrar silencioso de cada uma de suas estações
Com todas as suas cores, perfumes e sensações.
Mas nada faz sentir minhas vidas como o outono.
Minha janela parece mais secular do que na primavera
Meu silêncio e olhar mais antigos e pesados do que julgo que são...
E sinto o cheiro do sol escondido e das folhas acobreadas descendo vertiginosamente para o passado.
O zunido do vento gélido atravessa meus ouvidos e existências.
Tantas...
E nunca sei onde colhê-las depois de enterradas.
Mas nunca me desespero.
Elas sempre brotam.
São frutos de época,
De outonos.
Intervalos insignificantes entre úteros...
Fonte: http://borboletra2006.blogspot.com/2008/06/estaes.html
Garimpo -
De repente, o impulso!Abro os olhos como quem quer acreditar
E torno a fechá-los como quem quer sentir.
O Sopro de Vida.
O Hausto Criador.
Entrevejo constelações e sóis,
Mundos e seres,
Como num oceano.
Uma fração de segundo
E já não há mais Tempo.
Presente, passado e futuro...
Grilhões dos quais me liberto
Para tomar parte em tudo nesse mundo.
Entre as páginas, silêncio.
Fecho o livro, deito a pena
E vou ter com os poetas,
Artesãos de vida
Em comunhão sagrada com as palavras...
Escrever é um eterno garimpo.
Fonte: http://borboletra2006.blogspot.com/2008/05/garimpo.html
Ímpeto -
Ímpeto.
Um mundo de possibilidades
Na ponta do lápis.
Língua. Palavra. Vibração.
E eu indecisa,
Criança diante da vitrine de doces
Quais palavras escolho
Para compor o poema
Onde gritarei ao mundo
Aquilo que não sou?
Fonte: http://borboletra2006.blogspot.com/2008/04/mpeto.html
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"Momentos nos mostram...viver tem qualquer coisa de magnífico..."
Sem palavras para dizer...
Ouvir um poema de alguém que se foi
E ainda assim sente em seu peito
A saudade dos que ficaram...
E choram por outros olhos
Gritam por outras bocas
Soluçam por outros peitos
E sentem a vida pulsar
E transcorrer
Incessantemente.
"_ Minhas filhas, minhas filhas..."
Saudades dos que ficaram.
Olhos úmidos.
Poesia.Vida. Arte.
Fonte: http://borboletra2006.blogspot.com/2008/04/temporal.html
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VISÕES
Com-fusão de sentires!
Ausências, presenças, crenças
Sensações, reações, emoções
Presente, passado, futuro
Sentir, sentir !
Ir Além... ser e estar Além.
Ver através, abrir o peito em chamas
Em luz, em som.
Entre mundos
Pétalas, rosas, cores
Amor, Amor...
Semideuses
Beleza,
Harmonia,
Vibração
Fonte: http://borboletra2006.blogspot.com/2008/04/vises.html
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SONHOS...
Nestas últimas noites, tenho tido
Sonhos tão reais que quase posso tocá-los.
Há tempos isso não acontecia, mas ah...
Por dentro sinto-me como uma velha, cansada,
Vagueando por um mundo onde não tenho canto
E nenhum canto me vale.
Mas continuo caminhando - não porque quero,
Mas porque não tenho escolha.
Como tudo pode ser tão belo?
Mas na manhã seguinte ela desperta ao meu lado infinitamente...
Fonte: http://borboletra2006.blogspot.com/2008/04/sonhos.html
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QUASE SUSSURROS
"Onde estiver nossa poesia, ali estará nosso tesouro..."
A vida vem de longe
E é interminável a noite.
Com este pensamento,
Segura e resoluta, sento-me diante de um espelho.
Não. Não me sento diante de um espelho.
No entanto, diante de mim
Trago agarradas às mãos
Algumas folhas de papel surradas,
Uma caneta quase sem tinta e uma consciência pesada...
Minha alma vive construindo pontes entre abismos
Buscando sempre e sempre e tanto
O outro porto. Pés no chão. Pena em punho.
Tenta convencer-se (em vão?)
De que sentar-nos à beira das horas, vendo passar
As carruagens temerárias
(que nos surpreendem, tanta vez, quando notamos que somos
com elas, de carona.)
Não passa de brincadeira de criança.
Que a vida é fardo tênue demais
Para quem traz os pés e as mãos e o corpo
Deitados por sobre nuvens do sem-tempo.
Para quem cem anos não são mais que cem dias
Para aqueles que trazem como parte de sua bagagem extensa e imponderável e breve,
Exércitos invisíveis mas tão profundamente reais
Que reagem ao menor sinal,
Ao mais insignificante chamamento.
E creio que possuem cheiro de sol nascendo...
Fonte: http://borboletra2006.blogspot.com/2008/04/vida-vem-de-longe-e-interminvel-noite.html
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"O que me leva a escrever
É uma certa dor que me dá
De olhar para as coisas
E vê-las todas
E ter de pensar sobre elas
Fonte: http://borboletra2006.blogspot.com/2008/04/o-que-me-leva-escrever-uma-certa-dor.html




